Blog do Adilson Ribeiro

Sábado 21:47 – Morre João Gilberto, lenda da bossa nova, aos 88 anos. Clique na imagem abaixo e saiba mais informações…

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Responsável por uma revolução na maneira de cantar e tocar violão que mudou tudo na música brasileira, João Gilberto morreu neste sábado, 6, aos 88 anos. A causa da morte ainda não foi divulgada. Ele deixa três filhos, João Marcelo, Bebel e Luisa.

Nos últimos dez anos, aquele João Gilberto ícone da bossa nova foi aos poucos perdendo espaço para um personagem complexo. A decadência física, as questões de família, os problemas de dinheiro, os contratos mal feitos, enfim, um conjunto de episódios graves acabou soando mais alto do que o talento de um artista tão grande.

Veja:

 

Personalidades e familiares lamentam morte do cantor João Gilberto nas redes sociais

Caetano Veloso , cantor  — Acabo de saber que o João Gilberto morreu. É um acontecimento de imensa importância para mim. Tudo somado, no meu ponto de vista, João Gilberto é o maior artista brasileiro de todos. No momento exato, preciso da minha vida, ele apareceu dando um sentido mais profundo à percepção das artes em qualquer estágio. Nem sei o que dizer sobre o fato dele ter deixado de existir como pessoa física.

Moraes Moreira , músico — Ele representou tudo porque, quando nós formamos os Novos Baianos, Luiz Galvão, um dos um dos componentes do grupo, falava sempre do João Gilberto. A gente sonhava com o dia que ia encontrar ele e isso aconteceu no começo dos anos 70, quando ele chegou de uma turnê nos Estados Unidos, onde a bossa nova era um sucesso. Fomos ao apartamento dele em Ipanema, conversamos um pouco e, lá pra meia noite, João começou a tocar violão e aquilo começou a me deixar arrasado, me senti um miserável, porque ali eu percebi que não era nada. Ali eu pensei seriamente em deixar de cantar e tocar porque não chegaria nem à metade do que ele era. Passei duas semanas em depressão até que ele foi visitar o apartamento dos Novos Baianos e me deu o apelido de “vaqueiro do som”. Ele é o produtor espiritual do disco “Acabou Chorare” é o nosso maior ídolo, maior mestre, nos ensinou tudo: sobre a vida, sobre música, sobre amizade, sobre Brasil e tudo mais. Agora estou aqui com muitas saudades e fica esse legado dele pra gente.

Pepeu Gomes , músico — No momento tão difícil, não posso deixar de citar que João Gilberto foi o músico mais importante na minha carreira musical e na minha vida. A minha formação vem do João, do meu convívio com ele na época dos Novos Baianos, o aprendizado que ele passou pra mim, que foi muito importante só de conviver com ele nas reuniões que ele fazia no apartamento do grupo, em Botafogo. Com João, aprendi a história da música brasileira. No último álbum dos Novos Baianos tem uma música que fiz em homenagem a ele, “Na Baixa do Sapateiro”. É uma perda irreparável e nós vamos continuar o legado dele através da música.

Georges Gachot , diretor do filme “Onde está você, João Gilberto?”:

— Nesse momento, penso na minha querida amiga Miúcha, que deixou o João Gilberto com um grande vazio no peito em dezembro, quando faleceu. Miúcha, com sua sensibilidade, cultura e inteligência era essencial na vida de João. Com sua morte, perdemos um criador, uma luz que trouxe para os meus quatro filmes sobre a musica brasileira força e inspiração constantes. No meu último filme, “Onde está você, João Gilberto?”, falo do meu amor pela voz e pelo violão dele — é minha homenagem para sua arte e para todas as pessoas que queriam entender os grandes mistérios da criação e do amor. Muito obrigado, João, por tanto amor que você nos deixou em cada nota de sua voz e violão. Você é o coração da beleza.

Adriana Calcanhoto , cantora — Todas as entrevistas de todos os meus ídolos da música brasileira tinham sempre uma coisa em comum: todos e todas diziam que ouviram um dia um som que não existia, que não parecia com nada, que apesar de cool era uma revolução e que suas vidas e carreiras, que suas escutas musicais nunca mais foram as mesmas. Hoje, com a perda desse gênio da musicalidade e do rigor, todos o tratam como o pai da bossa nova, mas eu penso que ele foi muito mais do que isso. Sem João não só não teríamos a bossa nova como não existiria toda uma linhagem da música do Brasil imensamente influenciada por sua invenção. São gerações formadas por ele, até hoje. O poder de síntese da batida do seu violão contaminou a nossa música para sempre, virou tudo de cabeça pra baixo e para sempre. Não há como mensurar o feito dele, não há palavras para agradecer por isso e não há como não estar profundamente comovida neste momento. Muito obrigada, João, por tudo. Falemos baixo, por favor.

Paulo Jobim , músico — Foi um artista incrível, super dedicado, cuidadoso, um músico maravilhoso. Tive alguns contatos com ele durante a vida, quando criança e depois que ele voltou de uma viagem do México, também encontrei algumas vezes. Eu sigo um pouco da referência dele como artista, não sei dizer o que, mas sem dúvida o João é um exemplo, um ídolo. Fiquei triste em saber da morte dele.

Ed Motta , músico — João Gilberto foi um capítulo imenso de grande importância na música mundial, um referencial porque ninguém fez voz e violão com tanta eloquência como ele. Um compositor de poucas músicas que era essencialmente um intérprete muito brilhante. A precisão do violão e afinação da voz são uma curiosidade, porque isso acontecia mesmo com a letra desafinada, e tudo o que ele não era é desafinado. Um cara que revolucionou a música do mundo, a música que todo mundo estava respirando nos anos 60, tudo foi infectado por aquilo, o jazz, as trilhas das músicas da tv, o cinema, tudo. Fica a mensagem de um artista íntegro, que nunca se vendeu, não existe um disco ele tenha jogado cunho comercial para a torcida. João tem uma história de dignidade e integridade, um dos artistas mais íntegros da música brasileira.

Roberto Menescal , cantor e compositor — João Gilberto deixa um legado mundial, que vai para além da música brasileira. Conheci o João quando eu era garoto, no aniversário de 30 anos de casamento dos meus pais. Foi a única festa que eles deram na vida e, quando ele entrou, nem sabia quem era, achei que fosse apenas alguém entregando um presente. Ele perguntou se nós tínhamos um violão e, quando eu quis saber o porquê, ele disse: “É grave”. Levei-o até o meu quarto, onde o violão estava, e ele começou a tocar “Hó-bá-lá-lá” e, na hora, perguntei: “você é o João Gilberto?”, reconheci pela música. Ele disse para eu trocar de roupa para que nós saíssemos e, depois disso, passei quatro anos encontrando o João todo dia. Eu ficava à disposição dele, o João tinha esse poder sobre as pessoas. Sabe aqueles gênios que aparecem de tantos em tantos anos? Ele era um eles.

Martinho da Vila , cantor e compositor — É uma perda para a música de uma maneira geral, a maior virtude dele, na minha opinião foi colocar a batida do partido alto no violão, assim ele criou a batida da bossa nova e com isso ele botou o violão na mão da meninada, porque até ali o violão era um instrumento com muitas notas, era muito ritmado. Ele influenciou muita gente e não posso negar que fiz algumas músicas influenciado pela bossa nova.

Francis Hime , compositor — João Gilberto foi um músico excepcional que, junto com Tom Jobim e Vinicius de Moraes, revolucionou a música brasileira, influenciando toda uma geração de músicos. Nós conhecemos quando eu morava em Los Angeles e ele, em Nova York. Nosso primeiro contato foi por telefone, porque ele queria gravar “Último Canto”, uma música minha com o Ruy Guerra, o que acabou não acontecendo. Nós ficamos duas horas conversando.

Carlos Lyra , músico — Nesse momento passa um flashback pela minha cabeça. Do nosso primeiro encontro no Bar do Plaza, da nossa constante troca e apreço mútuo, dos tempos que vivemos em NY e no México. Estou muito triste. Difícil acreditar. A sensação é que estão apagando o meu passado com uma borracha enorme. Havia planejado deixar meu CD novo na casa dele assim que eu voltasse ao Rio, como fiz com o anterior. Gostava que ele ouvisse. Nosso nível de exigência sempre foi parecido. João foi quem deu a forma à Bossa Nova e é seu intérprete maior. Sua importância é inquestionável. Espero que sua obra seja mantida e que as novas gerações tenham pleno acesso a ela. Ele faz parte da memória cultural desse país. João Gilberto é pra sempre!

Carlos Diegues , diretor — Não convivemos muito, mas João Gilberto foi o inventor da Bossa Nova e criou algo que foi muito além da música brasileira. Ele deixa um legado extraordinário. Primeiro, entendeu a cultura brasileira e conseguiu passar isso para a música de uma maneira muito autêntica, conseguindo juntar a tradição da nossa música com a história do Brasil.

A neta Sofia Gilberto, de três anos, homenageou o avô pelo Facebook: “Foi o vovô mais amoroso e carinhoso que eu poderia ter tido”.

O filho João Marcelo, pai de Sofia, também lamentou a morte do pai no em seu perfil no Facebook.

— Meu pai faleceu. A luta dele foi nobre e ele tentou manter a dignidade enquanto perdia sua soberania. Agradeço à minha família (meu lado da família) por estar sempre com ele, ao Gustavo por ser um amigo verdadeiro e cuidar dele como um de nós. Por último, gostaria de agradecer a Maria do Céu por estar ao lado dele até o fim. Ela era sua amiga e companheira verdadeira — disse.

A mãe de Sofia, Adriana Magalhães Oliveira, lembrou do afeto que o cantor tinha pela menina.

Grande e único. Graças a ele, a bossa nova se consolidou e a música brasileira teve portas abertas para conquistar seu lugar no mundo. A brilhante geração de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque não teria ido tão longe se não fosse a inspiração de “Chega de saudade”, disco que João lançou em 1958.

São muitos os capítulos desta história. Primeiro, o do adolescente que cantava coisas do rádio no alto-falante da Praça da Matriz de sua cidade, Juazeiro (BA). Depois, o jovem que foi para Salvador sonhando em se profissionalizar.

 

Em seguida, a ida para o Rio como crooner do grupo vocal Garotos da Lua. Não deu certo. Demitido por faltar aos compromissos, ele tentou outros caminhos, gravou um disco que não aconteceu, chegou a participar de show de Carlos Machado, passou por maus pedaços no Rio, sem casa, sem trabalho, sem perspectiva. O cantor dessa fase é fã de Orlando Silva, tenta cantar como ele, mas fracassa.

De 1955 a 1957, não se ouviu mais falar em João Gilberto no Rio que o rejeitara. São os dois anos que ele passa em Porto Alegre, Diamantina e, por menos tempo, na casa dos pais em Juazeiro. Quando volta ao Rio, é outro homem, outro artista.

Consta que, durante ao seis meses em que morou com a irmã na cidade mineira, não saiu de casa, pouco falou, dia e noite abraçado ao violão em busca de ritmos e harmonias que acabariam dando forma definitiva a um estilo que logo seria visto por outros músicos como novo, quando não revolucionário. Novo estilo, nova bossa, bossa nova.

Embora muitos fatos relacionados a João Gilberto fossem criados, como se sua vida tivesse de ser tão extraordinária quanto sua arte, a transformação que ocorreu nos seis meses em Diamantina realmente aconteceram, num estranho processo de reinvenção difícil de explicar. Como terá chegado àquela batida de violão?

Por que mudou tão radicalmente o timbre de voz? E onde foi buscar a emissão, a divisão, a precisão, o jeito de cantar, de início aparentemente transgressor, mas, na realidade, preciso, adequado a todo tipo de canção, brasileira ou não? E de que forma voz e violão se integraram como uma coisa só, feitos um para o outro.

O fato é que o João Gilberto que volta ao Rio em 1957 vai, como diria Tom Jobim, influenciar “toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores”. Aos 26 anos. Criou assim a bossa nova, fez seguidores, ficou famoso. Cultuado no Brasil e admirado no mundo inteiro, gravou discos aqui e nos Estados Unidos, excursionou à Europa, apresentou-se em festivais, foi aplaudido no México e no Canadá, na Alemanha e no Japão.

Com esporádica passagens pelo Brasil, João Gilberto fez de Nova York o seu pouso. Em 1979, volta em definitivo. A partir de então e até 2008, ano de seu último show, cada subida ao palco é um acontecimento. Ou quando acontece, sempre com lotação esgotada, ou quando não, como o do Canecão (em 1979), cancelado por problemas de som que só o preciosismo de seus ouvidos detectou.

Cancelou também um show no Municipal, em 2011, pelo qual seu produtor seria condenado a devolver mais de R$ 500 mil ao teatro. Cancelou ainda, por problemas de saúde, a excursão comemorativa de seus 80 anos.

A maioria de seus últimos shows no Brasil deu-se em seu formato preferido: ele sozinho, terno e gravata, banquinho e violão. Sua relação com a plateia tinha de ser mutuamente respeitosa. Em várias ocasiões, zangado ou com um simples “psiu”, obrigou o público a fazer silêncio para ouvi-lo.

Fonte: Extra

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