O avanço das estatais chinesas sobre setores estratégicos do Brasil já não é mais apenas uma pauta comercial ligada a grãos ou exportações. A China amplia presença em portos, ferrovias, energia, petróleo e logística integrada, costurando um supercorredor que atravessa o país de ponta a ponta. A estratégia conecta lavouras de soja no interior, corredores ferroviários em expansão, terminais de contêineres e hubs de petróleo no litoral, estruturando uma rede em que empresas chinesas se retroalimentam dentro da infraestrutura brasileira.
A COFCO, estatal que se tornou a maior exportadora agrícola do Brasil, ampliou operações no Porto de Santos e hoje embarca grande parte da soja destinada ao mercado chinês. Em Paranaguá, a CM Ports assumiu o comando do terminal de contêineres e planeja aportes bilionários para ampliar capacidade. No norte fluminense, a mesma estatal avança sobre o terminal de petróleo do Porto do Açu, responsável por parcela significativa das exportações brasileiras.
O movimento se repete nos trilhos. A CRRC, maior fabricante de trens do mundo, participa do Trem Intercidades entre São Paulo e Campinas e venceu contratos para fornecer composições ao metrô paulista. Na energia, a presença cresce em distribuidoras, linhas de transmissão, hidrelétricas e fornecimento de equipamentos solares. A State Grid controla uma das maiores distribuidoras do país, enquanto a CTG opera ativos relevantes de geração.
Esses investimentos criam uma malha que conecta agricultura, logística e energia sob influência de empresas controladas por um único Estado estrangeiro. Para a China, o resultado é redução de custos no transporte da soja e do petróleo e fortalecimento de seu parque industrial. Para o Brasil, o impacto é duplo: modernização e capital estrangeiro de um lado, e crescente dependência logística e energética de outro.
Ao final, a pergunta central ganha força. O Brasil está diante de uma oportunidade estratégica de atração de investimentos ou diante de um risco de perda de autonomia em setores vitais da economia. A discussão envolve soberania, competitividade global, segurança energética, política industrial e papel geopolítico do país nas próximas décadas.

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