Domingo - 13:10 - Poema de Drummond sobre o Rio Doce, que circula em redes sociais, nunca foi publicado em livro. Clique e saiba mais

27 de janeiro de 2019 · Adilson Ribeiro · Notícias em Geral

Publicado em 1984 no jornal Cometa Itabirano, a citação que levou a dúvidas sobre autenticidade

Começou com um texto assinado pela jornalista Mariana Filgueiras no jornal O Globo no dia 15 de novembro de 2015. Ao recuperar obras literárias e musicais que já haviam abordado a paisagem e as águas do agora destruído Rio Doce, a reportagem evocava, entre outras canções, versos e trechos de prosa, um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Lira Itabirana. Fotografado diretamente da edição do jornal, tornou-se viral devido ao caráter "profético" de suas palavras:


I

O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.

II

Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!





III

A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.

IV

Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

Publicado em 1984 no jornal Cometa Itabirano, o poema não chegou a ganhar versão subsequente em livro - o que levou alguns portadores de antologias de poemas do autor a, em um primeiro momento, duvidar da autenticidade da citação, mas os versos são mesmo de Drummond.

Escrito em um período em que a dívida externa era um fantasma no horizonte de qualquer tentativa de crescimento no Brasil, Lira Itabirana, com versos curtos e diretos que buscam inspiração nas quadras da poesia popular, faz a comparação entre a atividade mineradora incessante e lucrativa e a dívida "eterna" do país, pouco aplacada mesmo com as toneladas de ferro exportado.

Apesar do aparente tom antecipatório, ele apenas reitera alguns elementos com que o poeta mineiro trabalhou ao longo de toda sua carreira: crítica social e política aliada à evocação nostálgica de uma Minas Gerais que já não existia. Lira Itabirana é apenas um dos exemplos de poemas nos quais Drummond refletia, entre melancólico e alarmado, com os efeitos da mineração em seu Estado natal. Qualquer deles, agora, poderia ser relembrado com o mesmo caráter assombroso.

Não é de estranhar que Drummond fale da Vale em Lira Itabirana. Ambos são conterrâneos. Itabira, a cidade a 104 quilômetros de B nd: "uma corrosão no sentido literal, socioeconômico - a serra sendo corroída pela retirada do minério - e uma corrosão metafórica - a alma corroída do itabirano, uma vez que procura a 'sua' serra, a qual lhe parecia eterna, e não mais a encontra."

Logo, a preocupação de Drummond com os efeitos da mineração em sua região nada tinha de profética. E se agora ela surpreende, é porque, infelizmente, ninguém estava prestando atenção. 

Fonte: Zero Hora - Fotos: Reprodução da Internet