Domingo - 11:30 - Cada brasileiro desperdiça mais de 40 quilos de comida por ano. Click na foto e veja a matéria completa
Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em parceria com a startup de pesquisas digitais MindMiners , com a Embrapa e com o programa Sem Desperdício da União Europeia revelou que cada brasileiro joga fora, em média, 41,6kg de comida por ano. Desse volume, 38% são arroz e feijão; 35% carnes (bolvina e frango); 4% leite e derivados e outros 4%, frutas e hortaliças. Demais itens apontados foram massas, peixes e grãos.
O levantamento realizado através de entrevistas presenciais e questionários online com 1764 pessoas de todas as regiões do país, diversas faixas etárias e de diferentes classes sociais mostrou que o brasileiro enxerga o desperdício como um problema e percebe que pessoas próximas têm hábito de jogar comida fora, mas não reconhece que ele próprio também está desperdiçando alimento. De acordo com o analista de Marketing da MindMiners, Rodrigo Patah — um dos responsáveis pela pesquisa — o comportamento é em nome da fartura:
O Brasil está entre os 10 países que mais desperdiçam alimento no mundo e isso é cultural. Os resultados que tivemos em diversos tamanhos de domicílios, tanto em lares de pessoas que moram sozinhas, quanto em casas com quatro, cinco pessoas; da classe A à E foram bastante semelhantes.
Segundo Patah, muitas pessoas aproveitam ofertas para fazer compras mensais e adquirem mais itens do que necessitam: 70% valorizam ter a dispensa de casa cheia. Além disso, a maior parte dos respondentes acredita que sabor (94%) e frescor (77%) são os principais, como consequência, muitos descartam as sobras das panelas (43%).
— Até a inflação dos alimentos seria menor se o brasileiro não jogasse tanta comida fora. É necessária uma conscientização — opinou o analista.
O montador de peças Raphael Martins, 27 anos, é um exemplo de brasileiro que desperdiça. Por morar sozinho e valorizar o frescor dos alimentos, joga metade do que cozinha no lixo.
— Feijão eu ainda congelo, mas arroz e macarrão estragam com facilidade. Até os ovos já chegaram a apodrecer porque não comi no prazo — conta.
Mesmo fazendo compras de 15 em 15 dias, não consegue aproveitar tudo que adquire e calcula que poderia economizar cerca de R$ 150 por mês se mudasse os hábitos.
— Eu adoro comer na rua, com a facilidade de aplicativos então, faço isso com bastante frequência. Cozinho para três dias da semana, mas chega no terceiro já não quero comer aquela comida e acabo jogando fora — confessa o jovem.
Iniciativas para aproveitamento
Há sete anos, após observar o enorme desperdício de comida nas feiras livres, a ex-empregada doméstica Regina Tchelly criou o Favela Orgânica com o objetivo de promover aproveitamento total dos alimentos. Hoje, ministra cursos no Morro da Babilônia para moradores e viaja o mundo para divulgar o projeto.
— Eu faço o uso de sementes, raízes, talos, folhas e casca. O que sobra, vira compostagem. Por exemplo, estamos na temporada da jaca. Da carne da fruta, faço coxinha; do palmito, arroz carreteiro; do caroço, patê; do gomo, faço uma bolonhesa que fica parecida com nhoque — contou a empreendedora.
Segundo Regina, que também ensina como plantar temperos e verduras em casa, as práticas geram redução das compras familiares e economia doméstica. Iniciativa com semelhante funciona no Sesc do Rio de Janeiro: o Mesa Brasil promove ações educativas sobre a utilização de cascas, sementes e talos em receitas nutritivas, além da doação de alimentos. O programa conta c hospitais, creches e abrigo. Nele, produtos doados por produtores e comerciantes passam por um processo de seleção e processamento, quando necessário.
O pastor evangélico Osmar da Silva, de 49 anos, não está cadastrado e busca na Ceasa, às sextas e sábados, alimentos para fazer sacolões e doar para comunidades de Mesquita, onde atende 30 famílias por semana. O voluntário Israel da Silva, de 41 anos, também recolhe nos boxes doações para uma clínica de dependentes químicos.
— Venho de quinta a sábado e levo cerca de 30 caixas por dia, incluindo frutas, verduras e legumes — contou o voluntário.
Daniel Alves, 33 anos
Especialista em Direito Ambiental do escritório Denise & Rocha Advocacia
Em âmbito nacional, não existe legislação que regulamente a doação de alimentos. Existe, apenas, um projeto de lei de 2013 que está parado na Câmara dos Deputados. Porém, no Estado do Rio de Janeiro, a Lei 7.106/2015 determina quais alimentos podem ser doados: os perecíveis, que estão aptos para o reaproveitamento, e os industrializados, dentro da validade, mas com emabalagem danificada.
O alimento que já foi preparado e exposto ao consumidor, como uma refeição de comida a quilo, não pode ser doado. Já insumos que estão dentro da validade, mas que perderam a sua capacidade de comercialização podem ser doados, por exemplo um vegetal com aparência feia, ou fruta com pequenos amassados. O artigo 9º isenta o doador de qualquer infração decorrente de possíveis doenças que os alimentos possam causar, exceto se ele for reincidente ou tiver má fé.
A lei ainda determina que os beneficiários — instituições sociais que trabalham com população carente, sejam orfanatos, clínicas de tratamento de dependentes químicos ou asilos — façam o preparo do alimento no mesmo local onde será feita a distribuição. Isto é, eles não podem receber os legumes, mandar para um restaurante cozinhar e receber de volta para servir. Tudo tem que ser feito na cozinha da própria instituição.
Todo esse cuidado é porque se um restaurante doar a comida pronta e quem comer tiver sintomas de intoxicação alimentar, o estabelecimento pode ser punido caso a pessoa entre com uma ação judicial. Mas, na prática, isso é muito difícil de acontecer. Além de não existir fiscalização, quem recebe o alimento, em tese, não tem poder aquisitvo para ingressar com um processo na Justiça.
Dicas para desperdiçar menos
1) Substitua as compras mensais por semanais
Além de poder comprar itens mais frescos, você só vai adquirir o que realmente precisa e evitar que alimentos estraguem na dispensa. Faça uma lista do que está em falta para não comprar coisas extras.
2) Planeje a sua semana
Seja realista e avalie quantos dias vai comer em casa ou em quantos vai levar marmita para o trabalho. Só prepare uma quantidade de alimento para esse período para não deixar sobras na geladeira.
3) Congele folhas e legumes
Acondicione com muito cuidado os alimentos a serem congelados e retire todo o ar de dentro das embalagens. O ar prejudica o processo de congelamento. Identifique com uma etiqueta o nome do alimento, a quantidade, a data de validade e a data do congelamento. Congele o alimento imediatamente após colocá-lo nas embalagens apropriadas, a uma temperatura de -18°C, em porções que sejam utilizadas de uma só vez.
4) Transforme um alimento
Inove na cozinha e utilize ingredientes para receitas inusitadas. Legumes que estão fazendo aniversário na geladeira, por exemplo, podem virar recheio de uma torta; o inhame ou a batata doce podem virar vitamina e a couve e a beterraba, um suco.
Fonte: Extra