Itaperuna Segunda feira 10:28 - 50 anos sem Humberto Lindelauf. Veja abaixo
No dia de hoje, comemoramos exatos 50 anos da partida de Pe. Humberto Lindelauf de nossa cidade, rumo à eternidade – Sacerdote católico, Pároco de Itaperuna, escritor, arquiteto, musicista, educador e progressista. Conheça detalhes inéditos sobre a história do Padre Humberto Lindelauf:
Continua após a publicidade:
Clique na imagem acima e Inscreva-se no Vestibular da Unig
Hubert Joseph Lindelauf nasceu na cidade de Aachen (Alemanha) em 18 de Junho de 1910, filho de Georg Lindelauf e Katharinna Bischoff. Poucos registros restam a respeito de sua infância, juventude e formação sacerdotal em terras alemãs. Faleceu em solo natal em 09 de Outubro de 1969.
Em 26 de Outubro de 1937, Pe. Humberto chega no Brasil. Bem como sobre seus primeiros anos de vida, pouco se sabe a respeito dos anos iniciais de estadia em solo brasileiro, nos resta apenas os registros de sua atividade sacerdotal.
Itápolis
O município de São Carlos, na região centro-leste do estado de São Paulo foi palco de massiva imigração de alemães no século XIX e início do século XX, destinados aos trabalhos nas fazendas de lavouras de café. A cerca de 120km, se encontra o município de Itápolis, próximo ao Rio Tietê.

Em 19 de Fevereiro de 1939, Pe. Humberto desempenhou a função de 9º Vigário na Igreja Matriz da Paróquia do Divino Espírito Santo, onde permaneceu na mesma função até 22 de Agosto de 1940. Após o período (de 1940 a 1963) em que a Paróquia ficou sob os cuidados dos franciscanos capuchinhos, os registros precedentes se perderam, tendo poucas referências a respeito da curta estadia de Pe. Humberto como Vigário de Itápolis.
Tem-se registro de um grande feito de Pe. Humberto enquanto Vigário. Em 13 de Junho de 1940, o tradicional Cruzeiro da Praça Cônego Borges foi transladado para o Largo de Santo Antônio (Alto da Vila Nova), em cerimônia oficiada pelo Pe. Humberto Lindelauf.



Itaperuna
Em 24 de Outubro de 1947 – como consta na página 33 do Livro de Tombo da Paróquia São José do Avahy – Pe. Humberto Lindelauf tomou posse na função de Co-Pároco, por ordem do Arcebispo Do Otaviano Pereira de Albuquerque, a fim de auxiliar o enfermo Pe. Salvador Cetrângulo, que veio a falecer em Março do próximo ano. Após a morte de Pe. Salvador, tomou posse enfim, como Pároco, o Pe. Humberto.
Em sua Ata de Posse lê-se: “tomei posse deste cargo no dia de hoje [24 de Outubro de 1947], lendo a minha profissão aos fiéis na hora da ladainha. Peço a Nosso Senhor Jesus Cristo e a Maria Santíssima, peço também a S. José, padroeiro desta paróquia, as suas bênçãos para que eu possa fielmente cumprir com todos os deveres paroquiais e aumentar sempre a vida espiritual desta paróquia.”
No dia 19 de Novembro do mesmo ano, como anunciado em jornal de circulação local da época, Pe. Humberto oficiou a “Novena em louvor de N. S. das Graças”, a fim de levantar fundos em “benefício das obras de nossa Matriz, as quais serão reiniciadas no começo do ano vindouro”. E foi assim que “nos últimos dias de dezembro de 1948 foram iniciadas as obras” como relata o Padre na página 33 do Livro de Tombo.
Obras da Matriz São José do Avahy

Com seu ideal progressista e pragmático, Pe. Humberto Lindelauf, com apenas um ano em posse da direção espiritual de Itaperuna, empenhou-se na construção da nova Igreja Matriz. Com estilo eclético, hoje se impõe a construção idealizada por Pe. Humberto que, além de levantar fundos para as obras, desenhou e calculou tudo quanto necessário para o planejamento da nova igreja.
Visionário, ergueu dois campanários imponentes, com largo espaço para abrigar o futuro conjunto de sinos, ocupando quase 1/3 da fachada, providenciou uma representação em azulejos do padroeiro, São José embalando o Infante Jesus, rodeados por um Coro Angélico.
No ano de 1955, mais precisamente no dia 10 de Dezembro, foi entronizada a imagem do padroeiro, São José, encomendada por Pe. Humberto. A imponente obras em tamanho natural, foi confeccionada por artista italiano em madeira nobre, com aplicação de olhos de vidro.
Já em 1º de Maio de 1959, plena Festividade de São José Operário, D. Antônio de Castro Mayer – conhecido posteriormente como Leão de Campos – faltando “tão somente alguns vitrais bem como sinos, órgão (…)” foi dada a Bênção Solene à Nova Igreja Matriz da Paróquia.
Pingo – Inconsciente literário de Hubert Lindelauf

Apesar de intensa atividade religiosa na direção espiritual da Paróquia de São José e toda força empregada nas obras de construção da Nova Matriz, não faltou fôlego para que Pe. Humberto realizasse outra importante contribuição– até então desconhecida pelos itaperunenses –, sua produção literária.
Homem dado às obras de caridade que alimentam o espírito, também dedicava-se ás obras que alimentam a mente. Escritor nato, versava sobre lembranças de sua juventude, bem como de histórias infantis que refletiam a sua vivência pessoal, principalmente, em terras brasileiras.
A Literatura é a Arte inconstante e evolutiva das palavras, na busca incansável pela materialização de sentimentos e ideias. Pe. Humberto Lindelauf era um “homem de poucas palavras”, como relata um entrevistado, pragmático, o sacerdote mantinha a fala firme e ruborizante, o que se confunde com seu espírito literário.
A expressão de seu inconsciente está personificada em Pingo, “menino que imigrou para o Brasil (…) e permanece órfão (…)”, como denota a Contracapa do livro “Pingo im Urwald” – “Pingo na Selva”, em tradução nos ” em Itaperuna, sob posse da Biblioteca Padre Humberto Lindelauf, do Centro Uiversitário São José de Itaperuna.
Padre progressista em meio à Resistência Católica

A região fluminense foi palco de um dos poucos redutos no mundo de Resistência Católica da década de 1960, contando com a liderança de D. Antonio de Castro Mayer, figura que hora ou outra, influencia a carreira sacerdotal de Pe. Humberto. O Leão de Campos, então Bispo Diocesano de Campos, encabeçou a resistência tradicionalista ao Concílio Vaticano II.
O Concílio Vaticano II contou com o Leão de Campos como um de seus Padres Conciliares, dele provém importantes medidas de renovação do espírito da Igreja; a Liberdade Religiosa, as bases do Ecumenismo e Diálogo Religioso, a Reforma Litúrgica que aproximou a Liturgia à espiritualidade popular, a Missa e os Ofícios em língua vernácula, bem como maior flexibilidade de uso do hábito religioso pelos Sacerdotes e Consagrados foram marcantes no período conciliar.
Pe. Humberto é natural da terra em que grandes avanços já ocorriam em sua época, a Alemanha. Em terras alemãs, décadas anteriores ao Concílio, Padres já empregavam o espírito que viria nortear os documentos pastorais da década de 1960, dentre eles, o abandono do hábito religioso, bem como a adesão plena das experiências litúrgicas, principalmente do Missal de 1965.
Sob influência dos novos ares que pairavam o Catolicismo, Pe. Humberto sempre se portava como um progressista. Como relatam vários entrevistados, o Sacerdote celebrava a Santa Missa com simplicidade, em vernáculo tanto quanto as rubricas o permitiam, bem como o uso de roupas laicas em seu dia a dia.
Os embates entre tradicionais e modernistas em Itaperuna foram acirrados. De um lado, Pe. Geraldo Gualandi – então Pároco da Paróquia Nossa Senhora do Rosário de Fátima – do outro, Pe. Humberto Lindelauf, Sacerdote alemão progressista. Tais figuras representam o ideal de cada lado de uma mesma Igreja, numa luta constante à corresponder os votos de obediência aos superiores, bem como de aderir ao sentimento de sua Igreja e seu Senhor.
Defensor da Cultura em tempos de Ditadura
No romper do Golpe que instaurou a Ditadura Militar em nosso país, Pe. Humberto Lindelauf voltou-se à defesa de seus paroquianos perseguidos. Abrigou um jovem jornalista perseguido por suas posições políticas, bem como contribuiu para as liberdade religiosa e de pensamento.
Frequentemente apontado como amigo das autoridades maçônicas de Itaperuna, o Sacerdote mantinha amizade pública também com lideranças do meio protestante. Foi assim que iniciou a Fundação São José, com o Termo de Abertura em 1º de Junho de 1968, empregando 48 funcionários, entre eles, Pe. Humberto Lindelauf.
Recebendo CR$7,00 por aula, Pe. Humberto desempenhou função de Diretor e Professor desde a abertura da Fundação até o período que antecedeu sua viagem de regresso à Aachen. Estava enfim, realizado o sonho do Sacerdote, favorecer Itaperuna com uma Faculdade de Filosofia, reduto do Noroeste Fluminense de produção de saber.
Últimos dias de vida
Em 1969, tomado por profunda tristeza após grave tragédia que preferimos omitir neste, Pe. Humberto se retirou para Aachen. Em 14 de Agosto de 1969, o Bispo de Campos concedeu licença de seis meses, ao passo que, o Bispo de Aachen, no dia 15 do mês próximo, ordenou que auxiliasse a Paróquia de Kall.
Em 08 de Outubro, Pe. Humberto foi transferido para a Paróquia de St. Severin, a fim de ser auxiliar do Pároco Pe. Bayer. A fim de atender tal demanda, pernoitou no Convento de Santa Bárbara, em Kall, antes de proceder viagem à Aachen.
Como consta em telegrama enviado pelo Consulado Alemão à Paróquia São José do Avahy, Pe. Humberto “foi encontrado morto em Kall, Alemanha. A morte ocorreu entre o dia 8 de Outubro de 1969, 19 horas, e 9 de Outubro de 1969, 8 horas e 15 minutos.”.
O corpo de Pe. Humberto Lindelauf repousa em descanso perpétuo no cemitério da Paróquia de St. Severin, no bairro Eilendorf de Aachen, sua terra natal. A fim de mantermos sua memória, cita-se aqui excerto de seu cartão de réquiem:
“Morto está, mas continuará bem vivo em nossos corações, incitando-nos para que marchemos unidos no caminho do dever, no caminho do bem, no caminho dos que, na vida vivendo, dignificam a Deus, a Pátria, a Família e a Sociedade”.
Mediante o Projeto de Resolução de nº 303/95, fica concedido a Hubert Joseph Lindelauf, o título honorífico post-mortem de cidadão do estado do Rio de Janeiro. Ao Pe. Humberto, talvez o maior itaperunense em espírito que nossa cidade conheceu: nosso profundo preito de gratidão!
Por João Pedro Dutra Pires, Graduando em História pelo Centro Universitário São José de Itaperuna, Terapeuta Holístico, Fundador do grupo espiritualista inclusivo ‘Lar de Luz’ e integrante da Frente LGBT de Itaperuna.
Publicado em primeira mão pelo site ocontraponto 4 dias atrás