Quinta-Feira - 14:36 - Prefeitura de Caxias faz intervenção em obra de Niemeyer e fecha marquise do Teatro Raul Cortez. Veja Abaixo
Uma obra da prefeitura de Caxias fechou com tijolos a marquise do Teatro Raul Cortez, que é obra do arquiteto Oscar Niemeyer. A estrutura faz parte do Centro Cultural que leva o nome do arquiteto na na Praça do Pacificador e também inclui a Biblioteca Pública Leonel de Moura Brizola. O local tem sido usado como abrigo por pessoas em situação de rua. O bisneto do arquiteto Oscar Niemeyer, Paulo Niemeyer, que também assina o projeto do teatro, disse que a intervenção não foi autorizada pelo escritório de arquitetura da família.
— A gente espera que o prefeito possa voltar atrás na decisão, porque a passarela é um elemento importante do próprio prédio, e aquele muro descaracteriza a obra.
O Teatro Raul Cortez tem capacidade para 440 pessoas e faz 15 anos de sua inauguração nesta próxima quinta-feira, dia 23. O projeto debrasileiro Oscar Niemeyer tem uma parede removível que permite que o palco se abra para a praça, e o público possa assistir aos espetáculos.
Sobre a obra, o próprio Niemeyer disse que o projeto o agradava particularmente. “Nele, adotei a ideia em que venho insistindo ao projetar um teatro – prevendo que as paredes de fundo do palco possam ser abertas para o exterior. Solução que, realizada neste teatro, comprova como é importante acolhê-la, com todo o entusiasmo”, disse o arquiteto à época. O Raul Cortez é considerado o terceiro maior palco do estado, atrás apenas do Theatro Municipal do Rio e do Teatro João Caetano.
Saimon Lucas Matias, de 21 anos, que vive no lugar com a mulher, Joyce Silva de Mello, de 18 anos, criticou a falta de políticas públicas de assistência social no município e a repressão com que a guarda municipal os trata.
— Eu vivo aqui embaixo há um ano. Estou correndo atrás de emprego, e está difícil. Eles só vêm aqui para tratar a gente mal, para humilhar. Por que vêm para reprimir a gente? Só porque eles dormem no ar-condicionado e a gente ao relento? Nós somos bichos? Nós somos pessoas! Não é porque a gente vive embaixo da marquise que a gente é bicho. Eles falam que estão dentro da lei, mas que lei é essa? — indagou.
Os dois foram viver na marquise do teatro depois que perderam a casa em uma comunidade.
— A gente perdeu nossa casa, ele perdeu o trabalho, não tinha como pagar aluguel mais — diz Joyce.
Também indignado com a obra, o ambulante Elias de Paulo, de 36 anos, se solidarizou com o casal. Ele relatou que morou sob a marquise do Raul Cortez por três anos.
— Eu já morei aqui na rua. O que eles estão fazendo é uma pouca vergonha. Se o prefeito viesse aqui com assistência social para ajudar as pessoas com emprego, creio que muitos não estariam na rua. Hoje não estou mais na rua, mas sei o que é isso. É muitas vezes não ter um alimento para comer. São poucos os que ajudam. Quando pede a alguém para pagar um salgado, muitos tratam mal, acham que a gente é marginal, criminoso. Quanto tempo tem o Raul Cortez e nunca pensaram em fazer muro debaixo da marquise! — afirmou.
Sem consulta à população
A técnica de enfermagem Ana Paula de Moura, de 47 anos, que integra o Conselho m parte do projeto de reforma do prédio, e que todos os procedimentos legais junto ao escritório do arquiteto Oscar Niemeyer foram cumpridos, por exigência da Caixa Econômica Federal, responsável pela liberação dos recursos para a revitalização do Teatro.
A Prefeitura de Duque de Caxias ressalta ainda que, desde 2017, quando aatual administração municipal assumiu seu primeiro governo, vem buscando recursos para as obras de revitalização e modernização do espaço público, degradado pelo tempo e pela falta de manutenção dos governos anteriores. Reforça também que as intervenções realizadas no local visam ainda a resguardar o patrimônio público e a segurança dos frequentadores.
No local indicado, existe a passagem de cabos de energia ligados aos equipamentos do prédio, que frequentemente são depredados e furtados,além da presença constante de usuários de drogas, causando não sóprejuízos ao patrimônio público, mas também colocando suas vidas em risco. A depredação e ameaça de roubos de cabos de energia constam em Boletins de Ocorrências realizados pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, junto aos órgãos competentes. Vale acrescentar que, em Duque de Caxias, os usuários de drogas e as pessoas em situação de rua são acolhidos em equipamentos públicos do município, como os Centros de Referência de Assistência Social e a Fazenda Paraíso, por exemplo."
Fonte: Extra
