Sexta-feira - 13:39 - Triste passado: número de escravos colocou Campos dos Goytacazes no topo do cenário escravocrata regional. Veja Abaixo
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Triste passado: número de escravos colocou Campos dos Goytacazes no topo do cenário escravocrata regional
Há exatos 134 anos, com sua assinatura em um documento, a Princesa Isabel pôs fim ao sofrimento direto infligido à população negra pela escravidão. Era a “Lei Áurea”. Como diz o ditado popular: “antes tarde do que nunca”. Começavam ali, porém, outros desafios para os ex-cativos abandonados à própria sorte, como sobreviver sem emprego e sem política pública voltada para este grupo. E isso causou reflexos que duram até hoje. De acordo com estudiosos do período, Campos dos Goytacazes se destacava no cenário escravocrata por sua quantidade de mão-de-obra negra. Para que suas fazendas de café e engenhos de cana-de-açúcar funcionassem, o hoje município, outrora Vila de São Salvador, chegou a ter o maior número de escravos da província do Rio de Janeiro.

Em levantamento histórico contido em sua dissertação “O negro e seu mundo: Vida e trabalho no pós-Abolição em Campos dos Goytacazes (1883-1893)”, a historiadora e coordenadora do Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho, Rafaela Machado, conseguiu, com base em relatos de escritores da época e outros estudiosos, estimar o quantitativo da população escrava na cidade:
“A partir dos dados fornecidos pelo escritor Teixeira de Mello, pudemos observar que todo o município de Campos contava em finais de 1880 com uma população de 91.880 indivíduos, sendo que, destes, 35.668 escravos e 56.212 livres, aí computados 10.266 ingênuos. Assim, a população escrava representava 38,82% da população. Ao considerarmos apenas o conjunto da população da Vila de São Salvador, do total de 19.400 habitantes, 40,77% compunha-se de escravos, isto é 7.910 indivíduos. Lana Lage da Gama Lima afirma que era este o maior número de escravos da província do Rio de Janeiro, que possuía nesse período 289.239 escravos, concentrando Campos 12,33% desse total”. (Ingênuos são crianças livres nascidas de mães escravas após a Lei do Ventre Livre, de 1.871).
A historiadora e coordenadora do Museu Histórico de Campos dos Goytacazes (MHCG), Graziela Escocard, relata que tão grande quanto a população escrava do município era o medo dos senhores de engenho que, em menor quantidade, reprimiam os cativos com violência, a fim de evitar rebeliões.

“No século XIX, tivemos um alto índice de escravizados na região para abastecer o mercado de trabalho, principalmente na produção açucareira, que foi a responsável pelo crescimento econômico da nossa cidade naquele período. Nessa época, a população negra era bem superior, o que gerava também medo nos grandes produtores rurais, que reprimiram os escravizados com violência. Tentando doutriná-los por meio da violência simbólica e física. Como vestígios desse passado, possuímos no Museu Histórico de Campos, instrumentos de tortura, conhecidos também como instrumentos de suplício, utilizados aqui na região como formas de castigo corporal”, comenta.
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Entregues à própria sorte
Após a Lei Áurea, os negros libertos foram buscar moradia em regiões precárias e afastadas dos bairros centrais das cidades. Não houve orientação ou preocupação com o destino daquela população que acabara de deixar as senzalas. E em Campos não foi diferente. Trata-se de uma triste realidade que reverbera até hoje.

Para a socióloga Simone Pedro, se os ex-escravos tivessem recebido apoio na época, a realidade da população negra no Brasil teria tomado rumo diferente.
“Não dá para dizer que seria muito próxima da ideal. Mas, com toda certeza, a situação do negro em nosso país seria diferente. O país que talvez mais experimentou a dignidade, a cidadania no pós-Abolição foram os Estados Unidos. Mas, ainda assim, a população negra de lá enfrenta problemas muito sérios. Está aí o movimento ‘Black Lives Matter’ para mostrar pra gente que o racismo ainda é uma questão muito presente no cotidiano do norte-americano. Mas, com certeza, com política pública de apoio lá atrás, teríamos hoje uma desigualdade racial bem menor porque hoje seríamos grupo de interesse do mercado e da política”.

E a socióloga conclui: “É importante frisar que, desde a Abolição da Escravatura, o projeto de nação brasileira é o de ‘desafricanização’ do Brasil. A gente experimentou, inclusive, política de embranquecimento do país. É importante destacar isso porque o projeto de eliminação da população negra, ele se efetivou muito mais nas instituições, nas estruturas da sociedade do que um projeto propriamente de integração do negro na sociedade”.
“É na luta que a gente se encontra”
Conforme diz a letra do samba-enredo do ano de 2019 da Estação Primeira de Mangueira – História Para Ninar Gente Grande: “Não veio do céu, nem das mãos de Isabel. A liberdade é um dragão no mar de Aracati”. Ao contrário do que muitos pensam, a população negra não aceitava de bom grado o cativeiro e lutou por sua liberdade. Graziela Escocard confirma, por meio de pesquisas, que Campos dos Goytacazes possuiu um alto índice de rebeldia negra, ou seja, rebeldia dos escravizados contra seus senhores.




Fonte: Terceira Via
