Quarta-feira - 16:24 - Fortes indícios de negligência em meio a tragédia de Carapebus-RJ. Assista ao vídeo Abaixo
https://www.youtube.com/watch?v=kz8WZJqQziA&vol=0&width=700&height=394
A recente inundação que atingiu a cidade de Carapebus, no Norte Fluminense, matando duas pessoas e deixando um saldo de 1.600 desalojados pode ter sido potencializada por negligência no manejo das comportas da represa que serve como um grande reservatório da água que abastece a cidade.
Devido a tragédia ambiental, o município está sob estado de calamidade pública decretado pela Prefeitura.
Moradores também destacam que houve demora na abertura da barra da Lagoa de Carapebus, fator que poderia ter contribuído para a vazão da água que inundou ruas e casas em apenas 24 horas, na quarta-feira (30).
As informações foram relatadas à reportagem da Agência Fonte Exclusiva e do Portal VIU! por um profissional com experiência na Defesa Civil, que falou sob a condição de sigilo, por temer represálias.
“Essa barragem precisa ser monitorada duas vezes ao dia, em sincronia com as previsões meteorológicas. Diante de ameaças de chuvas, as comportas precisam ser abertas para que esteja em um nível capaz de receber água”, disse o profissional.
Pelos menos duas semanas antes da tempestade, a previsão do Climatempo divulgada pelo programa Direto da Redação, gerado pela D+ News TV e compartilhado por um pool de emissoras, já alertava para tempestades em várias regiões do Estado do Rio, com ameaças de deslizamentos, principalmente para cidades do Norte Fluminense.
A Defesa Civil de Macaé, por meio de vários comunicados, em dias anteriores à tempestade, também divulgou alertas para os moradores da cidade. O mesmo não aconteceu em Carapebus.
O reservatório que transbordou pertencia uma Usina, que usava água armazenada para diluição de vinhoto jogado no meio ambiente em períodos de safra sucroalcooleira, mas com o fechamento da indústria na década de 90, passou a ser usado pela concessionária de água e esgoto, inicialmente a Cedae e agora a Rio+Saneamento, para abastecer a cidade.
Bacia hidrográfica, córregos e canais
Carapebus só tem uma Bacia Hidrográfica (Bacia da Maricota), que também recebe água do Córrego Grande, Córrego do Lameiro, Jacutinga, Maricota e Barreiros. A maioria tem ligação com o Parque Nacional de Jurubatiba, com exceção do Córrego Grande.
“Na área central, a Bacia de Carapebus recebe água dos córregos Maricota, Lameiro e Jacutinga, no bairro de Ubás. Em 1998, a cidade enfrentou uma enchente de grandes proporções, mas os efeitos foram atenuados graças às medidas preventivas com manejo correto da barragem e abertura da barra lagoa ”, explica o profissional.
A região de Carapebus, Macaé e Conceição de Macabu foram atingidas por um grande volume de chuvas, algo em torno de 220 mm em apenas um dia, mas as inundações são explicadas por fatores distintos.
Macaé é uma cidade que está situada abaixo do nível do mar, sendo vulnerável a inundações até mesmo diante de um volume de chuva mais baixo. Conceição de Macabu é cercada por montanhas. Os bairros da cidade são vales, portanto, a tromba d´água desceu a serra arrastando árvores e pedras, inundando ruas e residências.
Já Carapebus é mais plana, com um grande reservatório de água e possui mecanismos, como a barra da Lagoa podendo escoar água para o mar (em caso de abertura) e o manejo do reservatório que abastece a cidade, mediante manejo das comportas. Se tudo isso for executado com antecedência, os estragos podem ser atenuados em até 40% em períodos de enchente, segundo o profissional da defesa civil.
“O volume de chuvas nas três cidades pode ter sido o mesmo, mas as Bacias Hidrográficas nos três municípios são diferentes. Portanto, a água que inundou ruas e casas nessas cidades não vem de uma mesma Bacia”, pontuou o historiador e pesquisador de Conceição de Macabu, Marcelo Abreu, em entrevista ao programa Direto da Redação na quinta-feira (1º).
A situação foi tão assustadora em Carapebus, que moradores relataram ter saído de casa com água na altura do perito por volta das 20h de quarta-feira, 30 de novembro, para buscar ajuda da Defesa Civil e atualmente o órgão nem sede tem. Estaria abrigado no prédio da Guarda Municipal, uma demonstração de completa precariedade de um órgão estratégico para enfrentamento de catástrofes.
Agravamento da crise social
Antes da tragédia, o município já enfrentava uma crise social crônica. O prefeito Bernard Tavares (Republicanos), se elegeu em um pleito extemporâneo, alinhado à cartilha bolsonarista.
Ao assumir o governo, cortou programas sociais e demitiu servidores cooperativados sem pagar indenização trabalhista e com três meses de salários atrasados, asfixiando o fluxo de renda no comércio local. A tragédia do último dia 30, portanto, agravou a situação.
Atualmente, o governo do Estado, por meio de uma força-tarefa, atua para socorrer as vítimas da enchente e adota medidas para mitigar a crise social. Bernard Tavares, que não era visto no município, reapareceu durante a tragédia vestindo um colete Defesa Civil e fazendo vídeos em que aparece socorrendo vítimas.
Mas a cena que viralizou nas redes sociais, é a que discute com um morador e insinua que comprou voto do interlocutor em uma eleição.
Na última semana, diante do estado de calamidade pública decretado pela Prefeitura, o Ministério Público de Tutela Coletiva, Núcleo de Macaé, abriu procedimento administrativo para acompanhar o enfrentamento da situação e as medidas pela administração municipal de Carapebus.
A 3ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Núcleo Macaé participou de uma reunião virtual com a Procuradoria Geral do Município e representantes das Secretarias Municipais de Saúde e Assistência Social. O Grupo Temático Temporário para Desastres Naturais (GTT-Desastres/MPRJ) está dando apoio à Promotoria de Justiça.
Entre as diligências iniciais, a MP requisitou à Defesa Civil do Estado do Rio de Janeiro informações, no prazo de 20 dias, sobre o cenário atual no Município e as medidas que já foram adotadas e das que precisam ser providenciadas.
Entenda a enchente
Fortes chuvas atingiram o norte do estado do Rio de Janeiro na quarta-feira (30). Os temporais deixaram pelo menos quatro mortos e cinco feridos em dois municípios.
Em Conceição de Macabu, duas pessoas morreram e cinco ficaram feridas. Um deslizamento no bairro da Bocaina provocou a morte de uma idosa de 62 anos e da filha.
As aulas na rede municipal foram suspensas . Além disso, três unidades de saúde, também afetadas pela chuva, ficaram fechadas.
Em Carapebus, um idoso morreu atingido por um raio. Duas mulheres, uma idosa e a filha foram arrastadas pela água e morreram. As escolas suspenderam aulas para acolher desabrigados, um total de 1.600 pessoas.
A concessionária Rio+Saneamento chegou a interromper o fornecimento de água devido à queda de energia nos locais de captação.
No município vizinho de Macaé, em pouco mais de 24 horas, foram registrados 220 milímetros de chuva, volume esperado para todo o mês. Sessenta p m.br/cidades/chuvas-deixam-uma-mulher-morta-em-conceicao-de-macabu">Conceição de Macabu, duas pessoas morreram e cinco ficaram feridas. Um deslizamento no bairro da Bocaina provocou a morte de uma idosa de 62 anos e da filha.
As aulas na rede municipal foram suspensas . Além disso, três unidades de saúde, também afetadas pela chuva, ficaram fechadas.
Em Carapebus, um idoso morreu atingido por um raio. Duas mulheres, uma idosa e a filha foram arrastadas pela água e morreram. As escolas suspenderam aulas para acolher desabrigados, um total de 1.600 pessoas.
A concessionária Rio+Saneamento chegou a interromper o fornecimento de água devido à queda de energia nos locais de captação.
No município vizinho de Macaé, em pouco mais de 24 horas, foram registrados 220 milímetros de chuva, volume esperado para todo o mês. Sessenta pessoas tiveram que deixar suas casas, segundo a prefeitura.
As aulas da rede municipal de Macaé foram suspensas. Uma queda de barreira provocou a interdição total da Rodovia Amaral Peixoto (RJ-106), na altura do bairro de Imboassica, na tarde de ontem. A via foi liberada posteriormente.
A tragédia de Carapebus é tema de uma reportagem, em forma de documentário, que está sendo produzida pela D+ NEWS TV, que vai ao ar na nova temporada do Cidade em Pauta.
OUTRO LADO
Na tentativa de esclarecer os indícios de negligência, por meio de e-mail, a assessoria de comunicação da Prefeitura de Carapebus enviou resposta a um questionário enviado pela reportagem. Confira:
VIU!: A Prefeitura de Carapebus tem algum órgão que monitora a represa e reservatório da antiga usina de Carapebus?
Secom: Sim, a Defesa Civil.
VIU!- Quantas vezes é realizado esse monitoramento diariamente e quem é o responsável?
Secom: Regularmente.
VIU! – A prefeitura publicou algum alerta sobre chuvas e temporais nos dias que antecederam a enchente do Dia 30?
Secom – Sim, em suas redes sociais.
VIU! – Endereçou relatório para algum órgão?
Secom – Sim.
VIU! – Onde está localizada a sede da Defesa Civil?
Secom – No centro da cidade.
VIU! – O prefeito Bernard Tavares gravou algum vídeo ou áudio alertando a população sobre as chuvas, conforme fez a Prefeitura de Macaé, por meio de alertas?
Secom – Sim, em suas redes sociais, um dia antes do temporal que caiu sobre a cidade.
Checagem dos fatos
A reportagem checou as informações enviadas pela Prefeitura. Sobre o monitoramento que segundo a Secom é realizado regularmente pela Defesa Civil, os moradores asseguram que não estava sendo realizado e que no momento em que ocorria enchente, os funcionários do órgão estariam dormindo.
Sobre alertas que a Secom diz ter publicado nas redes sociais da Prefeitura antes da cheia do dia 30 de novembro, por meio de uma busca nas páginas da Prefeitura no Instagram e Facebook e no próprio site oficial do município, essas publicações não foram encontradas, assim como não foram apresentadas cópias de relatórios sobre monitoramento das barragens.
Os únicos alertas da prefeitura nas redes sociais foram sobre dia 3 e 4 de dezembro, quando a tragédia já tinha ocorrido e pautava os noticiários. Os alertas encontrados pela reportagem datam do ano de 2021, antes do governo Bernard Tavares. Confira:
A sede da Defesa Civil que a Secom diz estar localizada no Centro da cidade, é desconhecida da população e também não foi encontrada pela reportagem. Também não foram encontrados alertas do prefeito Bernard Tavares sobre riscos de cheia mencionados pela Secom. O único vídeo que o prefeito gravou foi por ocasião da morte de um morador atingido por um raio, quando ele pediu que as pessoas ficassem em casa, mas não mencionou riscos de inundação.
A concessionária Rio+saneamento também foi procurada para falar sobre o manejo do reservatório da antiga Usina de Carapebus, que, em tese, deveria monitorar, mas até o fechamento da reportagem não enviou respostas.
Fonte: Portal Viu