Quarta-feira - 17:20 - Médico do RS é investigado por mortes e lesões de pacientes. Veja Abaixo
Investigado pela Polícia Civil e afastado de suas funções pela Justiça por suspeita de estar envolvido em dezenas de casos de negligência médica que teriam provocado lesões graves e mortes em Novo Hamburgo (RS), o cirurgião João Batista do Couto Neto, de 46 anos, exibe em suas redes sociais, como forma de propaganda pessoal, a marca de mais de 25 mil cirurgias realizadas em 19 anos de profissão – uma média de cerca de 1,3 mil por ano.

O profissional que, segundo as investigações, pode ter feito mais de 100 vítimas ao longo da carreira, é participativo na internet, onde tem 15,7 mil seguidores no Instagram, além de outros 13 mil, no Facebook.
De acordo com informações do Jornal O GLOBO, o Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) afirmou que já abriu uma sindicância e, paralelamente à polícia, investiga o caso, que corre em sigilo.
Caso entenda que as denúncias sã nidade, somente “usava a estrutura do hospital para exercício de sua profissão”. O cirurgião exaltava o trabalho feito no hospital e exibia, ainda, a logomarca dele em publicações.

“Identificação que carregamos com orgulho”, disse ao publicar uma foto de seu crachá, onde é identificado como “médico do corpo clínico” do Regina. No aniversário da unidade particular de saúde, ele comentou que era lá onde vinha realizando a maior parte de seus procedimentos: “Tenho realizado a maioria das minhas cirurgias no Hospital Regina: um centro de excelência pela forma como cuida dos pacientes e também pela efetividade em garantir a melhor saúde não apenas para os hamburguenses, mas sim para grande parte da população das cidades vizinhas. Quantos nascidos nele, retornaram e continuam a retornar para tratar seus males?”, escreveu.
De acordo com a página de Couto Neto, ele é formado em Medicina pela Universidade Católica de Pelotas (UCPEL) e graduado em Cirurgia Geral, em 2003, pelo Hospital Nossa Senhora da Conceição, de Porto Alegre.
Possui ainda diversas especializações ao longo da carreira em cirurgia do aparelho digestivo, vídeocirurgia, entre outros. É membro da Sociedade Brasileira de Vídeocirurgia (Sobracil), do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e, também, da Sociedade Brasileira de Hérnia.
Procurada nesta terça-feira, a defesa de Couto Neto disse que ainda não vai se manifestar porque está “aguardando a integralidade do inquérito”. O médico já foi à delegacia de Novo Hamburgo que investiga as acusações. Mas optou por não responder as perguntas dos investigadores.
‘Não conseguimos entender por que ele fazia isso com as pessoas’
As investigações são lideradas pelo delegado Tarcísio Kaltbac, da Polícia Civil em Novo Hamburgo. De acordo com ele, o médico, que só atuava na rede particular, chegava a acumular até 25 cirurgias em um mesmo turno de plantão e o número de supostas vítimas – hoje em 73 – pode chegar a 100.

Uma das linhas da investigação da polícia é que esse comportamento visava a aumentar os ganhos financeiros, mas levava à negligência e aos erros médicos. Para o delegado, a quantidade de cirurgias impedia Couto Neto cuidar corretamente das intervenções e dos pós-operatórios. Mas os investigadores ainda tentam entender como falhas tão graves foram cometidas, o que leva à hipótese de crueldade deliberada.
— Não conseguimos entender por que ele fazia isso com as pessoas. Às vezes, operava uma região do corpo, mas cortava outra que não tinha a ver com a cirurgia. Houve casos de pessoas que definharam no hospital, morrendo aos poucos. Isso é recorrente nos depoimentos — afirmou Kaltbach, que defende uma avaliação psiquiátrica do médico — Ainda vamos evoluir para traçar o seu perfil.
O delegado contou que, além dos depoimentos, longos e numerosos, há documentos, prontuários e relatórios médicos a serem encaminhados e analisados pela perícia. Por isso, ainda não há previsão para o fim do inquérito.
— É estarrecedor o que ele fazia. Temos fotos de pessoas com a barriga aberta, apodrecendo, e ele não receitava nada, nenhum medicamento. Dizia que não era nada e que tudo ia passar. Temos relatos de tentativa de suicídio dentro do hospital, por causa de tanta dor — acrescentou Kaltabach.
Há duas semanas, a polícia realizou uma operação de busca e apreensão e pediu a prisão preventiva do médico. Mas a Justiça negou a prisão e determinou apenas o afastamento do cirurgião, por entender que, fora do centro cirúrgico, Couto Neto não oferecia riscos à sociedade.
A polícia também vai investigar a conduta dos hospitais em que o cirurgião trabalhava. Especialmente o Hospital Regina, que concentra todas as denúncias registradas. A depender da investigação, a direção do hospital pode responder por crime de omissão.
— Ainda não temos como concluir se houve crime por parte do hospital. Mas à medida que sobe muito o número de cirurgias para um único profissional, o hospital deveria ter atentado a isso. Eles tinham ciência. Até porque ele precisava reservar os blocos cirúrgicos — disse o delegado.