Quarta-feira - 14:39 - Pais de criança de 2 anos que morreu soterrada na Tijuca haviam se mudado no sábado para imóvel: 'Foi desesperador'. Veja Abaixo
Quando a garçonete Ana Lúcia Rodrigues, de 18 anos, se mudou para a quitinete que alugou na comunidade Chácara do Céu, na Tijuca, no último sábado, não fazia ideia da tragédia que marcaria sua vida. Ela passou por momentos de desespero na noite desta terça-feira, após um deslizamento de terra matar sua filha, a pequena Aylla Sofia Rodrigues Costa, de 2 anos. Aos gritos de socorro e aos prantos, ela implorou pela ajuda de vizinhos na tentativa de resgatar a criança com vida. Ana Lúcia teve ferimentos leves no deslizamento de terra.
A casa de Ana foi interditada nesta quarta-feira pela Defesa Civil, junto com outras duas residências vizinhas. O deslizamento também atingiu a cozinha da casa de Francisco Alves da Costa, de 50 anos, tio-avô de Aylla. Na ocasião o filho dele, de 19 anos, estava no local e teve ferimentos leves na perna.

— Eu estava trabalhando quando meu filho me ligou e disse que a cozinha tinha acabado de cair. Ele disse estar tomando banho. Eu não sabia da minha sobrinha. Eles me avisaram que ela ficou soterrada. Eu saí do trabalho e vim correndo. Se meu filho estivesse na pia, ele teria sido soterrado. Aqui já choveu muito, mas foi a primeira vez que isso aconteceu — afirmou Francisco, que ainda está m choque.
O medo do soterramento fazia parte da rotina dos moradores. Francisco relata que, quando chove forte na cidade, ele liga para o filho pedindo para sair de casa. O ritual de segurança também é cultivado pelos outros moradores que vivem na vila.
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— Era só começar a chover para eu ligar pedindo para ele sair de casa. A gente nunca sabe quando vai acontecer, mas se preocupa. Ontem, eu também liguei avisando do risco. Mas não fazia ideia que isso pudesse acontecer do lado, na casa da minha sobrinha-neta. Ela se foi muito cedo. Eu fico muito triste com isso. Minha casa está interditada e eu não tenho para onde ir — lamentou.
No local do acidente, em meios aos escombros, estavam os brinquedos da Aylla, misturados à lama e a pertences da família. Dos móveis, apenas a cama com as roupinhas da criança e um guarda-roupa, não foram soterrados. A prefeitura, a Defesa Civil e a Fundação Instituto Geotécnica (Geo-Rio), estiveram no local.

Foto: Domingos Peixoto/Agência O GLOBO
— Foi horrível. Ela era uma menina muito alegre e adorava brincar. A gente pediu para os policiais da UPP chamarem os bombeiros, mas eles disseram que os moradores estavam fazendo alarde da situação. Não era alarde, era desespero. Tinha uma vida correndo risco ali. Fomos nós que ajudamos no resgate. Os bombeiros ajudaram, mas demoraram a chegar. Se não fosse os moradores se ajudando, poderia ter sido bem pior — desabafou Diana Rodrigues, amiga de Ana Lúcia.
Aylla já foi resgatada sem vida pelo Corpo de Bombeiros. O sepultamento dela será na tarde desta quarta-feira no Cemitério do Catumbi, na região central do Rio, a pedido da família.
'Resgate demorou a chegar'
O desmoronamento que atingiu a casa ocorreu por volta das 20h. Os moradores contaram que, minutos depois, ligaram para os bombeiros pedindo resgate, que só chegou à comunidade mais de uma hora depois. O imóvel tem pouco mais de 20 metros quadrados, com um quarto, um banheiro e uma cozinha. No momento do deslizamento, Ana e a filha estavam na cozinha. Era hora da janta. O pai da menina, Edson Filho, que trabalha como porteiro, não estava em casa.
— Ana me disse que ouviu um barulho forte, como se algo estivesse se rompendo. Foi tudo muito rápido. Não dava para entrar logo de cara e tirar a Ayla porque o local estava energizado e dando muito choque. Meu vizinho teve que arrancar o fio para que a gente pudesse entrar e começar a cavar a lama. O pai dela, quando chegou aqui, desmaiou com a cena. Foi desesperador. Perdi minha menina porque demoraram para chegar aqui — lamentou Diana.
Segundo os vizinhos, na parte debaixo do morro, na Igreja Nossa Senhora Aparecida, a 900 metros da comunidade onde Aylla morreu, a sirene tocava para avisar sobre os riscos dos deslizamentos. Os moradores disseram não ter escutado o alerta em razão do forte barulho do temporal.
— Aqui há duas sirenes. Uma na parte de baixo do morro e outra lá no alto. Elas ficam um pouco longe daqui. E com o barulho da chuva não dá para escutar direito — afirmou Diana.
Bruno Ferreira, 38 anos, tinha ido à comunidade visitar uma amiga quando começou o temporal. Na hora do deslizamento, também ouviu um barulho forte como se algo estivesse se rompendo.
Segundo os moradores, acima do morro há um valão que corta parte da comunidade. Com a chuva, ele teria transbordado e provocado o deslizamento de lama que atingiu as casas.
— Ouvi o barulho, um estalo muito forte. Cheguei a ouvir o choro da menina também. Ela era uma criança contente. A gente fez de tudo para tentar salvá-la, mas já era tarde quando os bombeiros chegaram. Ela chorava bastante, mas teve um momento que o choro parou e só ficou o silêncio misturado com o barulho da chuva— relatou Bruno.