Terça-feira - 21:23 - Traficante FB vai a júri popular, 14 anos após helicóptero da PM ser abatido e matar 3 PMs. Veja Abaixo

20 de junho de 2023 · WM · Notícias em Geral

 

Em 17 de outubro de 2009, três policiais militares do Grupamento Aeromóvel da Polícia Militar (GAM) foram mortos durante uma guerra entre traficantes, depois que o helicóptero da corporação foi abatido a tiros e caiu na Vila Olímpica do Sampaio, na Zona Norte do Rio.

Passados quase 14 anos, três criminosos foram condenados pelo crime. O quarto -- e último formalmente acusado -- está no banco dos réus nesta terça-feira (20), no 3º Tribunal do Júri, desde as 10h10. Fabiano Atanásio da Silva, o FB, é a única liderança do Comando Vermelho apontada nas investigações como mandante do ataque ao Morro dos Macacos, em Vila Isabel, que resultou no confronto e na derrubada da aeronave.

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A favela, por sinal, foi alvo de nova investida da facção na noite da última sexta-feira (16), mostrando que, de lá para cá, muito pouco mudou no cenário de violência do Rio de Janeiro.

Helicóptero em chamas ao ser abatido, em 2009 — Foto: Agência O Globo/Fabiano Rocha

Helicóptero em chamas ao ser abatido, em 2009 — Foto: Agência O Globo/Fabiano Rocha

Estão previstas oito testemunhas para serem ouvidas. O primeiro depoimento foi de Carlos Henrique Pereira Machado, delegado da 25ª DP (Engenho Novo). Por dezenas de vezes, ele respondeu que não se lembrava do que era perguntado, já que tudo isso ocorreu quase 14 anos atrás.

O delegado disse também que, até hoje, jamais foi descoberto quem efetivamente fez os disparos que derrubaram a aeronave, e que a participação de FB teria sido identificada por relatórios de inteligência e depoimentos dos PMs. Até as 13h05, ele seguia depondo.

Penas de mais de 200 anos

 

Em setembro do ano passado, outros dois traficantes foram condenados pelo mesmo crime: Magno Fernando Soeiro Tatagiba de Souza, o Magno da Mangueira, e Leandro Domingos Berçot, conhecido como Lacoste.

Condenados por três homicídios qualificados e seis tentativas de homicídio, eles tiveram suas sentenças estipuladas em 193 anos, um mês e dez dias.

Em 2019, outro réu do mesmo processo, Luiz Carlos Santino da Rocha, o Playboy, foi condenado a 225 anos. Um quinto acusado, Michel Carmo de Carvalho, morreu antes de seu julgamento.

Fabiano Atanásio da Silva está preso preventivamente no presídio federal de Catanduvas, no Paraná, desde janeiro 2012. Ele foi levado para fora do Rio logo depois de ser capturado pela Polícia Civil em uma mansão em Campos do Jordão (SP).

À época, FB era o traficante mais procurado do estado. Responsável pelas bocas de fumo da Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, ele foi apontado pela Secretaria de Segurança à época como o mentor da invasão ao Morro dos Macacos.

Na chegada ao Tribunal de Justiça, no Centro do Rio, na manhã desta terça, a defesa do traficante disse que não há elementos para condenar FB.

“Ele está há mais de uma década jogado num presídio federal, preso preventivamente. Por um processo que não há sequer indícios. É tudo sobre ‘ouvi dizer’ do delegado e de oficiais da PM. Não há uma testemunha, uma escuta telefônica, uma elemento sequer de que Fabiano tenha participado, estado no local dos fatos ou incentivado que alguém fosse lá. Elegeram um inimigo público”, afirmou o advogado Cláudio Dalledone.

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Disque Denúncia oferecia R$ 10 mil por informações que levassem a encontrar traficante FB, preso em 2012 em SP — Foto: Divulgação/Disque-Denúncia

Disque Denúncia oferecia R$ 10 mil por informações que levassem a encontrar traficante FB, preso em 2012 em SP — Foto: Divulgação/Disque-Denúncia

A guerra e a queda da aeronave

 

Na virada de 16 para 17 de outubro de 2009, mais de uma centena de bandidos do Comando Vermelho de várias favelas da cidade se reuniram no Morro do São João (vizinho aos Macacos) e no Morro da Mangueira (a cerca de três quilômetros), para atacar a favela controlada à época pela facção Amigos dos Amigos (ADA).

A PM invadiu a região para tentar conter a guerra que aterrorizava a população. Pela manhã, a aeronave Fênix da PM foi atingida por disparos e acabou caindo na Vila Olímpica do Sampaio com seis tripulantes.

Os policiais militares Izo Gomes PatricioMarcos Standler Macedo e Edney Canazaro morreram. O piloto Marcelo Vaz de Souza (queimaduras na mão esquerda), o copiloto Marcelo Mendes (levou um tiro no pé) e o cabo Anderson dos Santos (queimaduras graves) ficaram feridos.

A investigação do caso ficou a cargo da 25ª DP (Engenho Novo), que indiciou 26 traficantesAté hoje, no entanto, não se sabe exatamente quem, de fato, atingiu a aeronave.

À época, Ilan Nogueira Sales, o Capoeira, integrante da quadrilha de Manguinhos, era apontado pelos órgãos de inteligência como principal suspeito de ter feito os disparos. Ele nunca respondeu por isso.

Na denúncia apresentada pelo Ministério Público contra os quatro réus, e recebida pela Justiça, a promotoria descreve a conduta de FB neste trecho:

“…organizou e liderou a empreitada criminosa de invasão da comunidade conhecida como Morro dos Macacos, determinando previamente a seus comparsas que empregassem violência consistente em efetuar disparos de armas de fogo contra todos os opositores à ação do grupo, além de ter participado diretamente da invasão e estar presente no local, também armado, reforçando a atuação e fornecendo seu apoio moral aos comparsas ainda não identificados, para que estes praticassem o crime acima descrito”.

FB era, de fato, uma das principais lideranças do Comando Vermelho em liberdade na época da guerra, mas bandidos acima dele acabaram ficando longe do banco dos réus.

Marcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, principal nome da facção, e Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, assassino do jornalista Tim Lopes e chefe do tráfico no Complexo da Penha, por exemplo, sequer foram citados no inquérito. VP segue preso e Elias cometeu suicídio em 2020.

Fábio Pinto dos Santos, o Fabinho São João, chefe do tráfico do São João e de Manguinhos, e Alexander Mendes da Silva, o Polegar, então chefão da Mangueira, chegaram a figurar entre os acusados, mas nunca responderam como mandantes do ataque.

Fabinho chegou a ser preso, foi solto e preso novamente. Ele entregou suas favelas para a cúpula da facção e largou o crime. Assim como Polegar, que foi preso no Paraguai em 2011 e, depois que foi solto, em 2013, abandonou a vida do crime por meio do AfroReggae.

O próprio MP, na cota da denúncia, em 2010, entendeu que as investigações da Polícia Civil deveriam continuar, já que “não trouxeram aos autos um suporte probatório mínimo acerca de suas efetivas participações na empreitada criminosa, não autorizando, nesta oportunidade, a deflagração da pretensão punitiva estatal”.

Um novo inquérito, pedido pelo Ministério Público e que poderia levar outros criminosos ao banco dos réus, jamais avançou.

Além deles, os citados que nunca responderam são:

  • André Anchieta Duarte, o Menininho (Jacarezinho)
  • Davi Moraes de Sá, o Paraíba (Manguinhos)
  • Edilson Lourenço de Azevedo, o Caroço (Manguinhos)
  • Eliseu Felício de Souza, o Zeu (Fazendinha)
  • Emerson Ventapane da Silva, o Mão (assaltante e assassino de policiais)
  • Fábio Gonçalves da Silva, o Fabinho Bernard (Manguinhos)
  • Franklin Gomes dos Santos, o Frank (Mangueira)
  • Ilan Nogueira Sales, o Capoeira (Manguinhos)
  • Luciano Martiniano da Silva, o Pezão (Complexo do Alemão)
  • Luiz Augusto Oliveira de Farias, o Índio (Mandela)
  • Luiz Cláudio Machado, o Marreta (Complexo do Lins)
  • Marcelo da Silva Soares, o Macarrão (Antares)
  • Paulo Rogério de Souza Paz, o Mica, (Chatuba)
  • Regis Eduardo Batista, o RG (Fé)
  • Ricardo Adão Amorim, o Barata (São João)
  • Ricardo Severo, o Faustão (Vila Cruzeiro)
  • Sandra Helena Ferreira Gabriel, a Sandra Sapatão (Jacarezinho)
  • Sandro Batista Rodrigues, o Naíba (Cidade de Deus)
  • Tassio Fernando Faustino, o Branquinho (Complexo da Penha)
  • Welington Fernandes de Freitas, o Manteiguinha (Mangueira)
 
Fonte: G1