Sexta-feira - 16:56 - Flamengo tem mais de R$ 1 bilhão em receita e dívida sob controle. Veja Abaixo

07 de julho de 2023 · AM · Notícias em Geral

Ainda que seja um dos dois clubes que mais conquistaram títulos na história recente do futebol brasileiro, o Flamengo passa com alguma frequência pela chamada “crise na Gávea”. Treinadores são demitidos em série, jogadores se desentendem com dirigentes, questões do futebol.

Que papel tem o dinheiro nesses momentos conturbados? Nenhum. Ou melhor: se em tempos longínquos o clube rubro-negro entrava em crise justamente pela falta de grana, hoje é a sobra dela que alivia a situação. A área financeira conduz a associação sem dar margem para críticas.

O primeiro número a chamar atenção é sempre o da receita. Mais de R$ 1 bilhão em faturamento! Nenhum outro clube brasileiro chegou lá, e o Flamengo passou dessa marca já pela segunda temporada consecutiva. Superavit acima dos R$ 100 milhões também virou rotina.

Os gastos são muito altos, também os maiores do país, mas não há o que contestar. Sendo uma associação civil sem fins lucrativos, não há proprietário que vá demandar dividendos. A finalidade é unicamente esportiva e continua a consumir o dinheiro gerado por outras áreas.


O grande risco para um clube nessa situação é se deixar levar e gastar demais, a ponto de registrar prejuízos e gradativamente perder controle sobre o endividamento. Não é o caso do Flamengo.

Com uma dívida que vem sendo reduzida desde o começo da pandemia e mais uma quantia exorbitante em caixa – para os padrões de um clube de futebol brasileiro, ter quase R$ 240 milhões disponíveis é uma raridade –, o clube está em posição confortável para encarar presente e futuro.

O ponto de interrogação está no que será feito desse dinheiro. Começará um novo ciclo de investimentos em atletas? O plano do estádio próprio será levado adiante com parte desse caixa, talvez? Para que o Flamengo vem se preparando financeiramente? Cenas dos próximos capítulos. Por hoje, o episódio mostra em detalhes o que está descrito nas demonstrações contábeis mais recentes, referentes a 2022.



 

Panorama


A relação entre faturamento (tudo o que foi arrecadado em cada ano) e endividamento (o que havia a pagar no último dia de cada exercício) raramente esteve tão favorável ao Flamengo quanto agora. É como um cidadão que tivesse chegado ao seu maior salário da vida, ao mesmo tempo em que pagou suas dívidas e abriu espaço no orçamento.

Se os números forem compreendidos em ciclos, a impressão é de que a diretoria rubro-negra iniciou um forte ciclo de investimentos em 2019 e vem baixando seus compromissos, ano a ano, desde o começo até o fim da pandemia. Em 2023, sem tantas obrigações acumuladas, pode-se iniciar um novo ciclo de investimentos – sobretudo em atletas.

 

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Receitas


Direitos de transmissão e premiações são os maiores do futebol brasileiro, com quase meio bilhão em 2022. Por um lado, porque o contrato rubro-negro no Campeonato Brasileiro é o maior do país, com mínimo garantido em pay-per-view que adversários não têm. Por outro, porque Copa do Brasil e Libertadores hoje correspondem a grande parte dos pagamentos, e o clube venceu ambas;

A área comercial é também a que mais fatura no futebol nacional, na soma de patrocínios e licenciamentos. Na comparação com o ano anterior, o Flamengo acrescentou R$ 50 milhões de uma vez;

Com a reabertura plena dos estádios, após a pandemia, o Maracanã voltou a fazer diferença nas contas da associação. As bilheterias saíram de R$ 28 milhões em 2021 para R$ 101 milhões em 2022. O estádio passou a gerar mais receitas, e o sócio-torcedor mais do que dobrou de valor. É o clube que mais fatura com torcida no país;

As transferências de jogadores foram a única linha em que o Flamengo gerou menos dinheiro do que na temporada anterior. Não quer dizer que tenha sido baixa a arrecadação líquida de participações de terceiros. Acima da faixa dos R$ 100 milhões, o clube se mantém entre os que mais faturam com vendas de direitos.

Dinheiro e performance


Quem arrecada muito gasta muito. Quanto maior o gasto no futebol, maior a probabilidade de vitória dentro de campo. E no caso do Flamengo existem particularidades, em relação à folha salarial.

No método adotado pelo ge, ela equivale a tudo o que indica a remuneração do futebol. Salários, encargos, direitos de imagem e de arena, premiações e deduções de natureza previdenciária.

Por ter sido campeão tanto da Copa do Brasil quanto da Libertadores, é natural que a diretoria divida as premiações dessas competições com o elenco campeão. Contabilmente, isto faz com que as gratificações (bichos) aos atletas inflem a folha. Já direito de arena e INSS são calculados sobre a receita. Quanto mais o clube fatura, maior o gasto.

Essas explicações se tornam necessárias para compreender a natureza do gasto. Existe uma parte da folha salarial que é escolhida pela diretoria: quanto se gasta com salários, consequentemente com encargos, e com direitos de imagem. Existe outra parte que está vinculada a sucesso esportivo (premiações) ou condicionada à receita (direito de arena e INSS).

Esclarecimentos à parte, o Flamengo teve em 2022 a maior folha do futebol brasileiro. E teve também resultados condizentes com o favoritismo que o dinheiro lhe confere, ao levantar os troféus da Copa do Brasil e da Libertadores. O quinto lugar não chega a ser um demérito.

Dívidas


Fica ainda mais fácil notar que o Flamengo vem se preparando para uma nova rodada de investimentos ao checar seu endividamento, em especial o perfil dele em relação ao vencimento. No ano passado, as dívidas de curto prazo (a pagar em menos de um ano) foram reduzidas.

O cálculo da dívida se faz assim: tudo o que precisa ser desembolsado menos o que está disponível em caixa. O clube da Gávea até tem obrigações de curto prazo bastante altas, próximas dos R$ 300 milhões, mas, como acumula muito dinheiro em caixa e aplicações financeiras, quase R$ 240 milhões, acaba tendo um indicador para lá de favorável.

De novo recorrendo à metáfora de um cidadão comum para facilitar o entendimento, é como se o sujeito tivesse muita dívida a pagar em breve, mas tivesse também muito dinheiro na conta corrente. Na data do pagamento, é só tirar o dinheiro e acabar com o problema. O que faltar, ele resolve com os salários que continuam a cair todo mês.

Entre as dívidas bancárias, estão empréstimos de instituições financeiras. Ultimamente, com as altas taxas de juros do Brasil, não tem sido recomendável para qualquer um manter dívidas dessa natureza. Foi o que o Flamengo fez. Em 2022, mais uma vez a sua diretoria reduziu as pendências nessa linha;

Parcelamentos fiscais já foram de R$ 400 milhões, uma década atrás, e vêm sendo reduzidos ano a ano. Desde que as mensalidades continuem a ser pagas, não há motivo para preocupações;

Obrigações trabalhistas são correntes, e não dívidas no sentido popular da palavra, de atrasos salariais. Por que correntes? Salários e encargos do mês de dezembro serão pagos só em janeiro, mas no fechamento do balanço, em 31 de dezembro, eles são contabilizados entre os passivos. Como o valor é muito baixo, não há sinal de irresponsabilidade;

Em “outros”, estão dívidas com fornecedores, agentes e clubes. A maior parte está relacionada a compras de direitos econômicos e federativos de jogadores. Sendo o Flamengo um clube que investe muito em reforços, é natural que essa linha se destaque;

Contingências são ações judiciais em andamento, nas quais o departamento jurídico entende que a probabilidade de derrota é alta. Ou seja, foram provisionados R$ 100 milhões para pagar esses processos, no dia em que eles tiverem desfecho. Como a Justiça brasileira pode demorar vários anos para encerrar esse tipo de situação, é uma dívida alocada no longo prazo.

Com informações do GE.