Sexta-feira - 17:18 -Russos buscam imóveis de luxo no RJ em meio à guerra da Ucrânia. Veja Abaixo
Os investidores estrangeiros já seguravam o mercado imobiliário de luxo do Rio de Janeiro diante da vantagem cambial, da alta taxa de juros e das dificuldades de financiamento no Brasil. Mas, de um ano para cá, eles têm olhado em peso para os imóveis de alto padrão da capital fluminense — seja para aplicar recursos, seja para mudar de vida.
A procura se concentra, sobretudo, na orla da cidade e nos bairros historicamente mais caros, como Leblon, Ipanema, São Conrado, Copacabana e Joá, na Zona Sul, mas se estende a regiões da Barra da Tijuca, na Zona Oeste. E entre os interesssados é possível verificar uma tendência maior de compra por russos.
Consultores imobiliários ouvidos pelo GLOBO atribuem essa alta na procura a fatores como a recessão em países da Europa e a guerra na Ucrânia, deflagrada em fevereiro do ano passado. O conflito aguçou o interesse de um público em especial.
— O interesse dos russos pelo mercado local desponta como uma nova tendência. Devido a um clima mais hostil na Europa, por conta da guerra na Ucrânia, os russos têm se interessado mais em investir por aqui — destaca Frederic Cockenpot, CEO da WhereInRio, que atua no segmento desde 2001 e trouxe o negócio para o Rio em 2007.
Os indicadores da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), calculados com informações da Associação Brasileira de Incorporadoras (Abrainc), confirmam que, nos 12 meses anteriores a abril, o volume de vendas no setor de médio e alto padrão saltou 23,5%, com 45.320 unidades negociadas em todo o país. O valor dessas vendas, por sua vez, teve alta de 7,1% e chegou a R$ 20,5 bilhões.
Na WhereInRio, que representa imóveis de até R$ 100 milhões no estado, Cockenpot diz ter observado um aumento de 35% na procura de investimentos estrangeiros no primeiro semestre deste ano. Os americanos ainda puxam o segmento de locações por temporada (35%), seguidos pelos europeus (25%). Os clientes da Europa são maioria no mercado de compra e venda (40%), composto em apenas um quinto por brasileiros. Enquanto isso, os russos já representam 15% dos aluguéis e 5% das vendas.
— Os clientes russos buscam apartamentos modernos, com boa infraestrutura, segurança também. Eles são um povo fechado, bem frio, diferente do brasileiro, que já chega falando. É um desafio entender se o russo gosta ou não [do imóvel], porque ele não mostra. Ele faz uma ‘poker face’, uma expressão sem reação durante as visitas. São bons negociadores e difíceis de decifrar, mas, no momento em que você cria uma relação, eles passam confiança — ressalta Cockenpot.
Outros consultores imobiliários corroboraram a tendência de alta do segmento. João Paulo Salgueiro, do Invexo, afirma que a empresa vendeu 23% a mais este ano na comparação com o semestre anterior, com clientes sobretudo americanos e europeus, mas também os russos. Já o corretor Henrique Martins diz ter somado, no primeiro semestre de 2023, todo o Valor Geral de Vendas (VGV) que teve no ano passado inteiro.
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— Eu posso falar que houve um aumento de 15% na procura de investidores estrangeiros neste ano de 2023. Os russos que me procuraram foi para locação de imóveis de alto padrão, de grandes apartamentos. São famílias com crianças pequenas, que não têm envolvimento com a guerra. Gente que tem dinheiro investido fora, trabalha em home office, em situações que a função geográfica não importa. Então o cara sai daquela guerra. Eles não respondem [sobre a guerra] claramente, mas observamos essa galera chegando, fugindo da guerra — destaca Henrique Martins.

‘A guerra é horrível’
Entre os russos e demais estrangeiros, parte busca um retorno financeiro com locação, e parte usa o mercado imobiliário para construir uma nova vida e investir no Brasil. Isso porque uma das formas mais fáceis de obter um visto no país é comprar imóveis no valor de R$ 1 milhão.
É o caso da família de R., que preferiu não revelar seu nome por segurança. Ele passou a se dividir entre Moscou e Rio de Janeiro a partir de dezembro de 2022. Começou alugando um apartamento em Ipanema, na Zona Sul, e depois na Barra da Tijuca, ao custo de R$ 15 mil mensais, além das taxas. A segurança, a infraestrutura moderna do prédio e a vista para o mar foram condições para ele adquirir uma cobertura linear na Barra, que tem entrega prevista para janeiro de 2024.
A cobertura, de 258 metros quadrados, custou ao russo R$ 7,4 milhões. São três quartos na Avenida do Pepê, com um terraço descoberto de 120 metros quadrados e uma piscina particular. R. conta que se apaixonou pelo Rio à primeira vista, o chegar à cidade pela primeira vez, durante o carnaval de 2013. Mas decidiu se mudar recentemente, para ficar mais perto do oceano, dos brasileiros e criar a filha de pouco mais de 1 ano.
— Foi incrível. Gosto de andar com meu cachorro na orla pela manhã. Pela primeira vez, vejo pessoas em cafés conversando, e não nos celulares. O crime é um problema, mas você se adapta. O Brasil é um país em desenvolvimento dinâmico e é bastante lógico investir dinheiro e recursos intelectuais aqui — afirma o russo, que ganha a vida vendendo dispositivos médicos para doenças cardiológicas e oncológicas. — Conheço outras famílias russas que estão alugando. A situação da guerra é horrível, embora seja estável dentro da Rússia.
A maior procura dos russos também é confirmada por quem aluga os imóveis. O francês Hervé Labeille visita há 30 anos o Rio, onde adotou o filho, há 25. No entanto, passou a investir em imóveis só na última década. Ele diz estar de olho em oportunidades na capital e outras cidades turísticas, como Búzios, na Região dos Lagos. O último investimento foi uma cobertura em Ipanema, que o custou R$ 3 milhões e mais R$ 1 milhão em reformas. Hoje, o imóvel é avaliado em R$ 6,8 milhões, e ele cobra de R$ 2.750, por noite, na baixa temporada, até uma diária de R$ 13.500, no réveillon carioca.

A cobertura tem 225 metros quadrados, três quartos, cozinha e banheiros construídos com mármore e vista panorâmica para o Morro Dois Irmãos, além de uma piscina privativa e uma área gourmet com churrasqueira.
— São clientes ricos, estrangeiros. Tem americanos, franceses, italianos, muitos clientes da população LGBTQIAPN+, e agora também os russos. Aluguei para uma família russa no ano passado, por duas semanas. Em maio, eles voltaram para ficar um mês. É um investimento, tem que dar lucro, alugar e vender bem. Tem investimento barato que nunca vai dar dinheiro. O que eu gosto aqui no Rio é que você tem prazer de ficar. Eu trabalho na França, mas fico três semanas a cada três meses no Rio — afirma Labeille, que também investe em tecnologia, cosméticos e revistas.
Com informações do Jornal O GLOBO.

