Domingo - 13:21 - Prefeitura do Rio planeja transformar a Cidade das Crianças, criada por Leonel Brizola, em parque dos evangélicos. Veja Abaixo
Prefeitura tem projeto para transformar a Cidade das Crianças, em Santa Cruz, hoje subutilizada, em parque temático religioso
O espaço terá representações do Monte Sinai, onde, segundo a Bíblia, Deus entregou a Moisés as tábuas com os Dez Mandamentos, e do Monte das Oliveiras, onde Jesus Cristo rezou antes de ser preso, julgado e crucificado. Haverá uma esplanada para eventos com capacidade para 70 mil pessoas e estacionamento para 700 vagas.
— O Rio tem vários marcos religiosos ligados ao turismo, como o Cristo Redentor e o Santuário da Penha, além da festa de réveillon, que teve origem em manifestações religiosas de matriz africana. Algumas correntes pentecostais têm o Rio como origem. Com a proposta, o prefeito reconhece a importância desse segmento nas políticas públicas. De outro lado, temos o interesse de atrair mais turistas para a cidade — disse o vice-prefeito eleito, Eduardo Cavaliere, que coordena a equipe de transição.
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Comissão de pastores
O custo do projeto ainda não está fechado. Cavaliere explica que, em janeiro, o município pretende criar uma comissão formada por teólogos, pregadores e pastores para definir como será o modelo de gestão do parque, cujas obras podem começar ainda em 2025. Não está descartada uma parceria com a iniciativa privada, se for identificada a necessidade de outros investimentos, como um hotel para peregrinos.
Durante a campanha à reeleição, Paes se aproximou do segmento evangélico. Após sair vencedor, ele já fez um aceno aos religiosos ao anunciar um palco gospel pela primeira vez no réveillon de Copacabana. Para lideranças religiosas e cientistas políticos, o gesto de Paes precisa ser analisado dentro de um cenário nacional. Isso porque, com o crescimento desse segmento, a estimativa é que os evangélicos já representem cerca de um terço da população brasileira, e os políticos, de modo geral, buscam se aproximar dos fiéis em busca de votos.
— Em algum momento, a população evangélica vai superar a católica. As lideranças políticas sabem disso e buscam aproximação com líderes dessa fé. O que não pode é favorecer apenas um segmento religioso— diz o cientista político Paulo Roberto Figueira Leal.
A jornalista Magali Cunha, especializada em comunicação e religião, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), acrescentou:
— Política e religião sempre estiveram juntas independentemente de o Estado ser oficialmente laico. Aconteceu com a Igreja Católica e agora com a fé evangélica. Mas é preciso que a prefeitura ofereça tratamento isonômico para todas as religiões, inclusive protegendo seus locais de culto, como os terreiros de culto das matrizes africanas.
Cavaliere argumenta que o novo parque será aberto a pessoas de todas as religiões:
— Não se trata de favorecimento de uma crença. Um exemplo: os últimos presidentes da República, exceto Jair Bolsonaro, investiram em melhorias de infraestrutura no entorno do Santuário de Aparecida do Norte, em São Paulo.
O deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) avalia que Paes, de fato, tenta se aproximar dos evangélicos. Bolsonarista, ele duvida, no entanto, que o prefeito carioca tenha sucesso nessa tarefa:
— A questão é que ele apoia o presidente Lula, que não é bem-visto por todos os evangélicos, porque não concordam com as teses da esquerda.
Um ponto em que prefeitura e especialistas concordam é que o turismo religioso gera receita para as cidades. Um estudo da empresa de desenvolvimento imobiliário AM Malls estima que o segmento movimente R$ 380 milhões por ano apenas no Brasil. Em Israel, 780 mil peregrinos deixam o equivalente a US$ 6,8 bilhões (R$ 40,8 bilhões) no país por ano. A AM Malls planeja construir um parque temático privado, com cobrança de ingressos, que conte a história das religiões cristãs do livro do Gênesis ao Apocalipse. O grupo chegou a pesquisar áreas no estado do Rio para lançar o empreendimento, mas agora resolveu focar no Nordeste. E o Rio não é a única cidade do estado a planejar um parque religioso. A prefeitura de Miguel Pereira pretende abrir a Cidade da Bíblia em 2025, ao custo de R$ 10 milhões.
Espaço esquecido
O GLOBO esteve na Cidade das Crianças na quinta-feira. A área que, na década passada, chegou a receber duas mil pessoas no fim de semana, está abandonada. Uma vila olímpica da prefeitura, aberta em 2021, ocupa parte do espaço. São cerca de 40 alunos por dia, que fazem pilates, judô, hidroginástica e outras atividades. A partir de 2018, durante a crise financeira enfrentada pelo então prefeito Marcelo Crivella, a filial do Planetário e um museu foram fechados, e um laguinho sumiu no matagal. Em janeiro, a vila terá uma colônia de férias para estudantes da rede pública da Zona Oeste.
A estrutura atual tem uma piscina que, no novo Terra Prometida, poderá ser usada em batizados e um lago artificial, que deve sofrer adaptações para representar o Mar Morto.
Fonte: O Globo

