Sábado - 16:33 - Por que tão poucos celulares roubados são devolvidos; como Piauí é exceção. Veja Abaixo
Você foi roubado ou furtado e teve o celular devolvido? Muito provavelmente, não. Segundo dados do Anuário de Segurança Pública, apenas 1 em 12 aparelhos subtraídos foi recuperado em 2024.
Falta de investigação e política descentralizada de governo ajudam a explicar porque é tão difícil ter o celular de volta após o crime.O que aconteceu
Dos 917.147 aparelhos roubados no ano passado, 35.666 celulares foram recuperados. Porém, 10 estados não divulgaram a quantidade de aparelhos recuperados - entre eles estão São Paulo e Rio de Janeiro, que lideram o número de registros de roubo e furto de celulares. Na lista das unidades da federação que mais recuperaram celulares estão:
Porém, total de celulares que são restituídos aos donos é ainda menor. Conforme o levantamento, dos 917.748 celulares roubados apenas 19.756 voltaram para os proprietários. Porém, só há informações do Distrito Federal e de oito estados - outras 18 unidades da federação não divulgaram esse dado.
Devolução do celular recuperado é o resultado do trabalho policial investigativo. Para Leonardo Silva, pesquisador sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, isso impacta positivamente na "sensação de segurança da população" e reduz a "percepção de impunidade".
"Se os dados de ocorrências de furtos e roubos sinalizam para uma queda de registros, o que é sim uma boa notícia, o número de registros de recuperação de celulares pela polícia e devolução para seus legítimos proprietários oscila bastante e parece indicar limitações na capacidade de processamento e investigação de tais casos pelo Poder Público. Essa deveria ser uma agenda a ser priorizada" - Anuário de Segurança Pública, de 2025
Cenário: descentralização e pouca investigação
Não existe um banco de dados central de celulares roubados. O problema é que se o celular de um estado ir para outro, há grande chance de os policiais não conseguirem detectar, pois não há uma base de dados comum para todo o Brasil.
Ministério da Justiça tem site para consulta, mas abrangência ainda é limitada. Em julho, o MJ lançou o Cadastro Nacional de Celulares com restrição. Ele tem maior serventia para as pessoas, que podem consultar se um Imei (espécie de RG digital dos aparelhos) foi marcado como roubado/furtado ou não. Ministério diz que já notificou 6.649 novas linhas acionadas em aparelhos com restrição.
Em São Paulo, Polícia Civil tem déficit de efetivo. Segundo o delegado André Pereira, presidente da Adpesp (Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo), a polícia responsável por investigar os crimes tem um déficit de um terço da corporação. Faltam aproximadamente 15 mil policiais - — o efetivo atual é de 28 mil. Segundo o delegado, o déficit no efetivo faz com que se priorize outras investigações, como tráfico de drogas, homicídios, violência doméstica e crimes patrimoniais.
Bases de furto/roubo unificadas ajudam, mas delegado reforça que falta integração para investigação. Para ele, empresas telefônicas se blindam para o fornecimento de informações, o que gera dificuldades na investigação. "Falta uma articulação mais fluída entre Polícia Civil, o poder público e o privado. Essa cooperação é essencial para que as investigações avancem de forma séria", disse o delegado Santos, da Adpesp.

Questionada, a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública) diz que tem feito operações e conta com programa para devolução. Órgão cita o programa SP Mobile para devolver aparelhos furtados ou roubados. A partir do Imei, sistema cruza dados de boletim de ocorrência com informações fornecidas por operadoras, permitindo rastrear os aparelhos "reativados" após furto e roubo. Secretaria cita ainda que desde o início da gestão foram restituídos 40,6 mil celulares só na Capital. Além disso, houve vistoria em 4,2 mil estabelecimentos e 899 prisões em flagrante.
Fórum Brasileiro de Segurança Publica obtém as informações a partir de solicitações às instituições e órgãos federais e estaduais de todo o Brasil. Apesar de fazer a compilação de dados, entidade ressalta que há falta de padronização entre estados. Um exemplo é que nem todos estados têm programas abrangentes de recuperação e devolução de celulares roubados.
Piauí: um caso que deu certo e virou referência
Em 2023, Piauí quis combater o crime que mais incomodava a população: roubo e furto de celular. Para isso, juntaram-se operadoras, SSP-PI, polícia local e tecnologia para atacar o problema. Então, foi criada uma base de dados de Imei de celulares subtraídos no Estado, além de iniciativas de repreensão e prevenção. A força-tarefa atua em três frentes:
- Blitzes - polícia faz abordagens na rua e checa se celular está em lista de restrição. Caso esteja, ele é apreendido.
- Intimações - se alguém ativar um celular com restrição, recebe intimação pelo WhatsApp para comparecer à delegacia. Ação é importante, pois evita receptação e sensação de impunidade.
- Operações - polícia realiza ações contra receptadores intermediários, geralmente lojas físicas ou virtuais que comercializam celulares roubados ou de procedência duvidosa.
Prevenção e devolução em massa. Estado faz campanhas para conscientizar as pessoas sobre os perigos de se comprar celulares furtados ou roubados, e realiza mutirões de tempos em tempos devolução em massa de celulares recuperados para os donos.

"A gente começou a recuperar tanto telefone, que acabou a subnotificação [muita gente não realizava b.o. pelo constrangimento]. O curioso é que pessoas que tiveram os celulares roubados no passado começaram a registrar a ocorrência para tentar recuperar o aparelho" - Delegado Matheus Zanatta, Superintendente de Operações Integradas do Piauí
Fonte: Uol