Quarta-feira - 17:41 - Operação Blasfêmia: bando que cobrava por orações e prometia milagres é alvo da polícia. Veja Abaixo
A Polícia Civil do Rio e o Ministério Público estadual (MPRJ) deflagraram, nesta quarta-feira, a Operação Blasfêmia, que mira uma quadrilha que cobrava fiéis para fazer orações, prometendo curas e milagres. Os criminosos atuavam a partir de uma central de telemarketing no Centro de Niterói, na Região Metropolitana do Rio. Um pastor — que deve passar a usar tornozeleira eletrônica — e outros 22 integrantes do grupo foram denunciados. A investigação identificou movimentações superiores a R$ 3,3 milhões em um período de dois anos. Com base nisso, foram decretados o sequestro de bens e o bloqueio de contas bancárias dos investigados, bem como o de empresas a eles vinculadas.
O objetivo da ação é cumprir mandados de busca e apreensão. De acordo com o MPRJ, o grupo era chefiado por Luiz Henrique dos Santos Ferreira, conhecido como profeta Henrique Santini, que tem mais de oito milhões de seguidores em suas redes sociais. Segundo a denúncia, ele divulga diariamente promessas de milagres voltados à vida financeira e afetiva dos fiéis e disponibiliza um número de telefone para interessados em entrarem em contato direto com ele em busca de resolução de seus problemas.
De acordo com o MPRJ, o atendimento espiritual fazia parte de um esquema de exploração financeira da fé. Dezenas de vítimas foram levadas a crer que falavam diretamente com Henrique Santini mas, na verdade, estavam em contato com atendentes que fingiam ser ele, utilizando áudios previamente gravados, inclusive com pedidos de contribuição em dinheiro, em transferências via Pix. Segundo a denúncia, os atendentes contratados não possuíam qualquer autoridade religiosa. A denúncia também relata que ao menos sete adolescentes foram aliciados para o esquema.
— A atuação de líderes religiosos na arrecadação de dízimos e ofertas é permitida dentro do princípio da liberdade religiosa, garantida pela Constituição Federal (artigo 5º, VI e VIII). No entanto, quando essa arrecadação ocorre por meio de fraude, ultrapassa o campo da fé, sendo considerada conduta criminosa — afirmou o delegado Luiz Henrique Marques Pereira, titular da 76ª DP (Centro de Niterói).
Os valores cobrados, de acordo com a Polícia Civil, variavam entre R$ 20 e R$ 1,5 mil, conforme o tipo de oração oferecida. Para dar vazão ao grande volume de arrecadações, o grupo usava, conforme as investigações, uma rede de contas bancárias registradas em nome de terceiros, dificultando o rastreamento das movimentações financeiras. Os atendentes eram remunerados por comissões proporcionais à arrecadação semanal e, de acordo com os investigadores, submetidos a metas rígidas de desempenho. Aqueles que não atingiam o valor mínimo estipulado eram dispensados.
— Pelo que foi apurado, o que realmente motivava o grupo criminoso não era o atendimento religioso, e sim a exploração financeira da fé, sem nenhum escrúpulo. As exigências de metas de faturamento, contratação indiscriminada de pessoas para se passar por líder religioso, ameaças de desligamento do grupo daqueles que não atingirem as metas de arrecadação estabelecidas, deixam claro a intenção espúria dos investigados, tomando como pano de fundo a religião evangélica — disse o delegado.
A investigação começou em fevereiro deste ano, quando a polícia identificou a existência de um call center, onde foram flagradas 42 pessoas realizando atendimentos virtuais. Na ocasião, 52 telefones celulares, seis notebooks e 149 cartões pré-pagos de telefonia móvel foram apreendidos. A análise desse material, afirma a Polícia Civil, confirmou a atuação coordenada do grupo e permitiu identificar milhares de vítimas em todo o território nacional.
As investigações seguem com o objetivo de identificar novas vítimas e eventuais participantes da organização criminosa.
À TV Globo, Santini disse se sentir vítima de uma perseguição religiosa. Ele afirmou ter formação em teologia e trabalhar há mais de 10 anos como pastor:
— Sou surpreendido com um mandado de busca e apreensão e até agora não encontraram nada que pudesse me incriminar. Colaborei, dei todas as coisas possíveis. Eu entendo isso como uma perseguição religiosa.
O EXTRA tenta contato com a defesa de Santini. O espaço segue aberto para qualquer manifestação.
Mensagens em grupos
As mensagens enviadas para os fiéis em grupo de WhatsApp usavam um tom de urgência; "Deus mandou eu vir falar com você. Você vai fazer um sacrifício no altar de 24 reais, 24 reais, representando as 24 horas que eu vou ficar no monte. Você vai me pedir a chave Pix, esse dinheiro será para a gasolina do monte, para eu conseguir estar lá", diz uma delas, obtida pela TV Globo.
Outro áudio divulgado pela emissora é de de um fiel afirmando que não tem comida em casa, mas se esforçará para enviar o dinheiro: "Não tenho nada na minha casa a não ser água e sal, na minha casa. Mas se Deus me abençoar, daqui para mais tarde eu faço um Pix, em nome do Senhor Jesus. Mas no momento estou sem nada, sem nada".
Fonte: Extra