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Pintando sonhos
“Aqui consigo fazer minhas reflexões, faço amizades, consigo relaxar e me distanciar dos problemas. Estar aqui me ajuda a entender as pessoas e aprendo com as várias idades. A vida é muito complicada, mas a gente tem que seguir em frente sempre. Aprendi que se tem uma coisa que ninguém te tira é o conhecimento e eu quero aprender muito mais”.
As palavras de Dona Hercília Maria Andrade, 51 anos, moradora do Surubi, sintetizam um pouco do que é conviver semanalmente no curso de Pintura em Tecido do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) do bairro. Hercília é uma frequentadora assídua do local. Por lá ela já fez cursos de corte e costura, marcação em tecido, bordado, cabeleireiro, design de sobrancelhas e agora aposta nos pincéis para colorir de alegrias os muitos tecidos à sua volta.
Mãe de seis filhos e oito netos, Dona Hercília diz que ainda quer mais e deseja que os netos em breve também possam usar o espaço para socializar e aprender coisas legais.
Outra entusiasta do espaço é a cozinheira desempregada Tatiana de Cássia, 38 anos, também moradora do Surubi. Casada e mãe de dois filhos, ela é uma das mais falantes da turma de 17 alunos que frequentam as aulas toda quarta-feira de 8h às 11h.Tatiana é outra frequentadora assídua do CRAS. Ela já cursou artesanato, design de sobrancelhas e há um ano se dedica a aprender a pintar.
“Estou aqui para ter qualidade de vida e aprender algo para ter uma renda para ajudar em casa, já que estou desempregada. Mas antes de qualquer coisa o curso é uma terapia. Isso aqui virou um consultório de psicólogo pra mim onde consigo expressar sentimentos. É muito legal quando vejo que transmito meu humor para as pinturas que faço aqui. Tem dias que estou bem leve e as pinturas saem mais coloridas e em outros dias que estou mais tensa e nervosa as pinturas saem mais escuras. Isso aqui me move. Gosto muito de vir pra cá e conviver com as pessoas. Olha essa gente toda (faz um gesto apontando para o grupo à sua volta), cada uma tem um jeito, uma história e aqui aprendo a entender que cada um merece respeito por tudo que vive e já viveu” Ensina com uma humildade e maturidade que inspira.
Apesar de desempregada, Tatiana faz sobrancelha em casa (que aprendeu no CRAS) e pinta jogos de pano de prato e banheiro pra vender e diz que quando consegue um dinheirinho extra, investe na compra de matéria prima para fazer comida para vender aos fins de semana. “Se você comer meu salpicão e feijão tropeiro nunca mais vai querer outro. Quando aviso que vou fazer não sobra nada nas panelas”. Diz cheia de orgulho. Quando questionada porque não segue cozinhando todos os fins de semana, alega que o dinheiro que arrecada sempre tem que ser destinado às demandas mais urgentes. “Quem tem criança em casa sabe o que é. Falta leite, remédio, comida, então não tem como guardar para investir sempre”. Reclama.
Fugindo dos problemas
Dona Euridicéia de Oliveira, 67 anos, também moradora do Surubi, é outra frequentadora que não perde uma aula. Ela é categórica em dizer que frequentar o CRAS lhe garante momentos de alegria que muitas vezes não consegue ter em casa. Mãe de uma filha e avó de dois netos, ela mora sozinha no andar de baixo de um sobrado (a filha e os netos moram no andar de cima) e há dois anos frequenta o curso de pintura em tecido.
“Venho pra cá pra fugir dos problemas de família. Já estava estressada, angustiada e depressiva dentro de casa. Muitas vezes a gente aposta numa boa educação em casa e não conseguimos ver isso na prática. Isso estava doendo no meu coração. Quando cheguei aqui no CRAS descobri que posso me libertar um pouco desses problemas. Isso aqui é pura diversão, distração e alegria. Acho que deveria ter ainda mais cursos pra gente fazer. Queria ficar aqui o maior tempo possível pra aprender algo, pra rir, brincar e conversar”. Nos conta cheia de emoção.
Além de frequentar o curso de pintura em tecido do CRAS, Dona Euridicéia diz que vende calcinhas, soutiens e cuecas pra passar o tempo e arrumar um dinheiro extra para bancar as despesas da casa. Frequentar a igreja do relógio é outro compromisso que ela não abre mão.
Aulas que mudam vidas
Quem ensina as técnicas de pintura aos alunos é a professora Devanilda Macedo, de 70 anos. Discreta e cheia de vergonha para dar entrevistas, ela se mostra completamente à vontade ensinando a cada um com extrema paciência e desenvoltura. Além das aulas no Surubi, Dona Devanilda ainda ensina nos CRAS do Bairro Niterói, Frigorífico, na igreja São Benedito e na ASAPI (Associação Santo Antônio dos Pobres) e conta como percebe a mudança no comportamento dos alunos.
“Fico muito feliz em ensinar e ver como todos eles, independente da idade, conseguem se expressar de forma a mostrar sentimentos através da pintura. Gosto de ver também como eles ao longo do tempo vão mudando o comportamento e ficando mais leves em relação aos problemas que trazem de casa”. Conta a professora.
CRAS – Um espaço de convivência e alegrias
Gerido pela Secretaria de Assistência Social, Trabalho e Habitação da Prefeitura de Itaperuna, o CRAS é uma unidade pública de assistência social, do Sistema Único de Assistência Social, que se destina ao atendimento de famílias e indivíduos em situação de vulnerabilidade e risco social. São nesses espaços que toda população em situação de vulnerabilidade e risco social recebe atendimento no Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família – PAIF, por meio do qual pode também acessar outros serviços, benefícios, programas e projetos socioassistenciais.
O CRAS é a porta de entrada para o cidadão acessar a proteção social básica, assim como outras políticas públicas.
O curso de Pintura em Tecido está presente nos CRAS do Surubi, Aeroporto, Vinhosa, Niterói e Castelo e atende uma média de 60 pessoas nesses espaços.
A psicóloga Micheli Sales, secretária de Assistência Social, Trabalho e Habitação da Prefeitura de Itaperuna, é quem comanda as ações dos CRAS junto com o grupo de coordenadoras de cada unidade. É dela a responsabilidade de promover o projeto e gerir os recursos provenientes para o bom funcionamento de cada um desses locais.
“Fico muito feliz em saber que apesar das dificuldades e desafios a gestão municipal com o prefeito Rogerinho Boechat conseguiu garantir os insumos necessários para o retorno e o bom funcionamento das oficinas nos CRAS e Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos. Todos esses esforços são por reconhecer a importância desses trabalhos para os cidadãos que participam e que são atingidos pelo carinho, atenção e comprometimento dos funcionários desse
importantes espaços de trocas e crescimento pessoal e profissional”. Garante a secretária.
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-Fonte: Secretaria Municipal de Assistência Social, Trabalho e Habitação.
