Blog do Adilson Ribeiro

15 de Novembro – Dia Nacional da Umbanda – O mito de Zélio de Moraes. Clique na imagem e leia o artigo:

A Umbanda pode ser definida como um conjunto de práticas e crenças populares, religiosidades e tradições comunitárias que remetem às suas raízes na África Central (na região que atualmente engloba Cabinda, Congo e Angola). Desta região africana, entre os povos Bantus, vieram os primeiros escravizados do Brasil que, conforme apontam registros dos séculos XVII e XVIII, sincretizaram as suas crenças com as práticas religiosas cristãs e ameríndias. Este sincretismo foi o primeiro passo para o surgimento da Umbanda como se pratica hoje nos milhares de Terreiros, Centros e Tendas em todo o Brasil.

Para honrar uma das mais antigas crenças brasileiras, o Dia Nacional da Umbanda foi instituído pela Lei nº 12.644 de 16 de Maio de 2012 pela então Presidenta Dilma Rousseff. Para a data de celebração anual ficou o 15 de Novembro, que de forma conjunta se festeja a Proclamação da República. A sugestão da data, feita pelo grupo hegemônico de umbandistas no tempo da Legislação, não foi escolhida ao léu – remete-se ao dia em que supostamente o jovem Zélio Fernandino de Moraes teria anunciado a religião de Umbanda.

Zélio Fernandino de Moraes

O mito de Anunciação da Umbanda
A Anunciação da Umbanda teria sido feita no dia 15 de Novembro de 1908 por duas Entidades, o Caboclo (na forma de um indígena) das Sete Encruzilhadas e o Preto Velho (na forma de um africano) Pai Antonio da Luanda, ambos manifestados no corpo de seu médium, Zélio de Moraes.
O jovem Zélio, oriundo de uma família Writing Studio nardo Maria de Cannecatim e ‘Umbanda’ no livro “Folktales of Angola” de Héli Chatelain (1894) como “faculdade de curar por meio de medicina natural ou sobrenatural”.

Antes mesmo de Zélio, encontramos em Artigos de Jornais inúmeros relatos sobre a Umbanda. Como exemplificação – Pai Rafael, dono de um famoso Canzel (Terreiro) no Rio de Janeiro e médium de Ogum e do Preto Velho Pai Quintino, praticava a Umbanda, conforme relata Leal de Souza e Nóbrega da Cunha, famosos cronistas sobre as práticas de ‘Baixo Espiritismo’ e ‘Macumba’ em terras cariocas; ou ainda o Pai Antonio da Silva Lucas – chamado pelos Jornais de ‘Antonio Conselheiro da Umbanda’ pelos seus feitos de cura e aconselhamento que, como médium de Ogum Matinata e “Vovozinho”, dava aos seus consulentes – que praticava a ‘Linha de Ubanda’ antes mesmo de 1913.

Em uma das primeiras aparições de Zélio de Moraes nas páginas jornalísticas, em 22 de Maio de 1936, o Jornal A Noite define a sua prática como “[…] explicou um velho assistente, é a famosa Linha de Umbanda.”. Ora, Zélio reproduzia em sua Tenda Espírita (de modo quase kardecista) tão somente aquilo que os demais praticantes da afamada Linha de Umbanda seguiam fazendo na região metropolitana do Rio de Janeiro há tempos.
De fato, o próprio Zélio recorreu à Umbanda antes mesmo de “fundá-la” – Segundo o relato de sua filha Zélia de Moraes Lacerda, em entrevistas nos anos de 1992 e 1996, o pai havia, antes do episódio ocorrido na Federação Espírita: “papai recorreu à Umbanda […]” na casa de uma benzedeira “preta, lá na Rua São José” em Niterói. A senhora de nome Eva costumava atender as pessoas manifestada com seu Preto Velho, o Tio Antônio e nesta ocasião disse que seu irmão (outro Preto Velho) passaria a se manifestar em Zélio em breve (na sequência, supostamente Zélio incorporou Pai Antonio da Luanda no dia seguinte).

Do mito à fama de Fundador da Umbanda
Zélio Fernandino de Moraes irá apresentar ao mundo o seu mito somente décadas após a suposta data de fundação de sua Tenda Espírita. Uma das primeiras menções de seu nome como o Fundador da Umbanda se dá somente em Novembro de 1957 na Matéria “Cabana de Pai Antonio” do Jornal ‘O Semanário’. Noticiando a inauguração da nova Sede da Tenda Nossa Senhora da Piedade, diz que Zélio foi “um dos fundadores da Umbanda”. Já em Setembro de 1960 a ‘Tenda Espírita Irmã Elza’ nomearia o “Caboclo das Sete Encruzilhadas” e o “Pai Antonio de Luanda” como os “Pastores da Umbanda”.

Em 1971, Lilia Ribeiro, Dirigente da Tenda Espírita Luz, Esperança e Fraternidade, publica a Matéria “Eu fundei a Umbanda” na Revista ‘Gira da Umbanda’, em que reproduz a sua entrevista com Zélio de Moraes. É somente a partir daí que o mito de Anunciação e Fundação da Umbanda tomará verdadeira forma e conhecimento do público.
Hoje, Dia Nacional da Umbanda, deve-se em cada Terreiro celebrar a luta pela liberdade religiosa, contra a intolerância religiosa e ao racismo estrutural. Este dia não deve mais tratar de Zélio, o homem branco de família rica que se apropriou e descaracterizou a cultura religiosa negra. Repensar a História da Umbanda não é contar estórias para ninar a Casa Grande – É sobre acordar a Senzala!

Saravá a Umbanda!

Por João Pedro Dutra Pires – Umbandista, Historiador pelo Centro Universitário São José de Itaperuna (UniFSJ) e Pós-Graduando em História da África e Diáspora Atlântica pelo Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN).

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