Com barba pintada ou natural, boina e óculos ou com perucas, o chefe da milícia da Baixada Fluminense, Danilo Dias Lima, conhecido como Tandera, costuma usar disfarces para não ser reconhecido e ser preso.
A estratégia foi descoberta por agentes do MP que encontraram selfies feitas pelo paramilitar após a quebra de sigilos telefônicos durante uma investigação contra a quadrilha. Tandera e mais 16 pessoas envolvidas com a quadrilha foram alvos de uma operação do MP com apoio da Polícia Civil na quarta-feira.
No material analisado pela investigação, fotos de Tandera mostram que o miliciano sempre ia disfarçado para os encontros com seus aliados. Em uma delas, aparece com cabelos longos e cacheados e óculos. Em outra, cabelo aparado e barba tingida. Para a execução de seis jovens, usou uma espécie de farda na cor preta de força especial e cobriu o rosto e cabeça, deixando apenas os olhos à mostra.
Os aliados
A investigação revelou também a formação de uma “coalizão” entre políticos da Baixada Fluminense e os líderes da milícia de Tandera. Por meio das quebras de sigilo de telefones, o MP teve acesso à gravação de uma reunião, que teria acontecido no dia 22 de abril de 2020, entre a alta cúpula da organização criminosa e pré-candidatos à prefeitura dos municípios de Nova Iguaçu, Queimados e Seropédica para as eleições daquele ano.
No encontro, Danilo Dias Lima, conhecido como “Tandera”, falou sobre a meta de “alcançar os três poderes”. “Enquanto a gente não alcançar o Legislativo, o Poder Judiciário, o Executivo, o ‘quarto poder’, a gente não vai conseguir nada”, disse ele. Na reunião, ele explicou que o quarto poder é o Ministério Público.
Entenda a reunião que formou uma ‘coalizão’ entre a milícia e políticos da Baixada Fluminense
Encontro que aconteceu em abril de 2020 foi feito para debater um acordo entre pré-candidatos e a cúpula da milícia de Tandera
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Estavam presentes quatro pré-candidatos às eleições de 2020, mas apenas dois deles de fato concorreram a algum cargo; nenhum foi efeito
Entre os presentes estava um ex-deputado federal, Cornélio Ribeiro, que foi pré-candidato pelo PRTB
Presentes na reunião, “Delsinho” e “Antonio” já morreram
Seis pessoas que participaram da reunião foram denunciadas pelo Ministério Público; Jorge Alves Santos, conhecido como “Jorge Karatê”, não consta no processo
A operação, chamada “Epilogue”, deflagrada nesta quarta-feira contra a quadrilha, cumpriu 13 mandados de prisão preventiva e outros 25 de busca e apreensão
Das dez pessoas que participaram da reunião, seis foram denunciadas pelo Ministério Público do Rio. Danilo Dias Lima, o “Tandera”, Marcelo Morais dos Santos, o “Grande”, e Gilson Ingracio de Souza Junior, o “Varão”, são acusados de envolvimento com organização criminosa, ameaça e extorsão, lavagem de dinheiro e porte ilegal de arma de fogo.
Já os políticos Thaianna Cristina Barbosa dos Santos, a “Dra. Thay”, pré-candidata à prefeitura de Mesquita pelo PSDB em 2020, Luciano Henrique Pereira, que foi pré-candidato à prefeitura de Seropédica pelo PL, e Cornélio Ribeiro, que foi pré-candidato pelo PRTB, mas não chegou a concorrer à prefeitura de Nova Iguaçu naquele ano, foram indiciados por ligação com organização criminosa.
Jorge Alves Santos, que também estava no encontro, não foi denunciado pelo MP. Delson Lima Neto, conhecido por “Delsinho”, irmão de Tandera, foi morto em agosto de 2022. Antonio também morreu e Rodolfo, citado na investigação, não foi identificado.
De acordo com o Ministério Público, os pré-candidatos, já denunciados, prometeram secretarias de Governo, nomeações para cargos públicos e benefícios em licitações fraudulentas em troca do apoio político em suas campanhas eleitorais.
Como foi a reunião
Já no início do encontro, Rodolfo, apontado como articulador do debate pela polícia, diz: “Todo mundo que está aqui tem uma chance monstruosa de ganhar e, com a ajuda de vocês, a gente se organizando bem, a gente ganha com os pés nas costas.” Em outro momento, ele completa: “A minha proposta é a de montar uma estrutura. Essa estrutura passa primeiro no Executivo e depois vem pro Legislativo. Vocês necessitam de mais (representantes) no Legislativo. Vocês precisam de deputados que tenham comprometimento com vocês. Beleza?”
E Danilo (Tandera) afirma:
“Na verdade, a gente precisa do Legislativo, Executivo, Judiciário e o futuro ‘quarto poder’, que tá ganhando e tá chegando quase em primeiro, que é o Ministério Público, que hoje em dia ele é o pau para toda obra…”
Segundo relatório da Polícia Civil, enquanto Rodolfo continua falando sobre suas ideias políticas, Danilo (Tandera) o interrompe e pergunta a todos que estão presentes se eles “se incomodam”, possivelmente para saber se eles se importariam com a próxima ação do miliciano, que coloca um fuzil sobre a mesa. Em seguida, todos respondem que “não” em uníssono. Na sequência, uma pessoa não identificada fala sobre a importância de que todos ali saiam comprometidos com o propósito do grupo. Então, Tandera diz:
Depois, o miliciano exalta o trabalho da organização criminosa:
“Graças a Deus, a Milícia, hoje em dia, é um fruto de luta, né? É um fruto de um bom trabalho. Ela está em aclive, ela não está em declive. A realidade é essa, né? Ela tá em ascensão! […] Parece ser impossível, mas difícil não é. Enquanto a gente não alcançar o Legislativo, o Poder Judiciário, o Executivo, o Quarto Poder, a gente não vai conseguir nada, a gente não vai sair desse rol.”
Em seguida, Tandera fala sobre a compatibilidade de ideologia entre a organização criminosa e o grupo político.
“Para a gente conseguir alcançar o Legislativo, o Judiciário, o Executivo e o Quarto Poder, nada sai de graça. Para vocês estarem aqui hoje também, vocês sabem que lá na frente, pô, tudo é um investimento. Eu tenho um pedido para fazer. Se não fosse para vocês, ia ser para outras pessoas que viessem com uma ideologia, mas a ideologia de vocês bate com a gente […]”
Condições para o acordo
Danilo e Rodolfo explicam, então, aos integrantes da reunião, como funcionaria o acordo para os benefícios. Nesse momento, Danilo pergunta “quantos municípios” estariam envolvidos, e Rodolfo responde que “são seis”:
— Cada município é licitação. A gente tem que ter o direito a uma licitação. A gente tem que ter o direito a alguma secretaria. Tá me entendendo? Aí as coisas vão andar, aí a gente faz um elo — afirma Tandera.
Em seguida, um homem não identificado tranquiliza os participantes da reunião dizendo que não é preciso se preocupar com o fato de a licitação mostrar um vínculo entre empresa e a milícia. No discurso, ele garante que terá empresários que não arriscam serem vinculados com o grupo criminoso: “E quando se fala em secretaria, mesmos moldes”.
Vai fazer o que, vai colocar uma Secretaria na mão do Tandera? Não tem como!
— Tandera
— É uma coisa normal. É o governo normal. Só quem precisa saber são as partes”.
Operação com seis prisões
A operação, chamada Epilogue, teve o objetivo de cumprir 13 mandados de prisão preventiva e outros 25 de busca e apreensão contra integrantes da organização criminosa conhecida como “milícia do Tandera”.
Na manhã de quarta-feira, agentes do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (GAECO/MPRJ), da 48ª DP (Seropédica) e da Coordenadoria de Investigações de Agentes com Foro (CIAF) prenderam seis pessoas, dentre elas cinco pessoas com mandados de prisão preventiva e um homem, que estava em um carro monitorado e foi preso em flagrante ao trocar tiros com os policiais.
Segundo as investigações, que tiveram início em 2018, a organização criminosa é responsável por extorsões, homicídios, ameaças, grilagem de terras, agiotagem, exploração ilegal de areais, lavagem de dinheiro, entre outros crimes, principalmente nos municípios do Rio de Janeiro, de Nova Iguaçu, Queimados e Seropédica. Também foram identificados vídeos com cenas de episódios de tortura e execuções sumárias, praticadas cruelmente.
Com informações do Extra.
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