Um exemplo utilizado pela mãe de Arthur para demonstrar essa distância entre pai e filho foi a previsão de que ele poderia ficar com o menino em certas datas comemorativas, como no final do ano, mas nunca se interessou por fazer isso.
"E perante a lei, as conciliações, ele tinha, ele podia pegar nas festas de final do ano, essas coisas, no entanto ele não cumpria muitas vezes isso. E a gente sempre conversava sobre isso. A gente sempre conversou", contou.
Pai não pagou pensão alimentícia integral no último mês, diz mãe
Apesar de pagar, como Aline disse, regularmente os valores da pensão alimentícia, ela explicou que justamente por ter combinado de reaproximar o filho com Davi ele disse que não conseguiria pagar todo o valor da pensão naquele período. Ela disse que não se opôs, que entendia a situação.
O acordo foi por conta da viagem de Davi para João Pessoa justamente com o intuito de estar mais próximo do filho e iniciar uma nova etapa no relacionamento entre os dois.
“No último mês ele ainda pagou um pouco menos porque ele falou, ‘não, eu tenho que me organizar para comprar a passagem’. Eu falei, ‘não, tudo bem. Se for preciso ajuda pra comprar passagem pra você ver, Arthurzinho, a gente te ajuda’, não tem problema nenhum”, disse.
Conforme a Polícia Civil, a pensão alimentícia da criança custava em torno de R$ 1,8 mil.
A tentativa de aproximação entre pai e filho
De acordo com as investigações da Polícia Civil sobre o caso, o suspeito de ter cometido o crime havia viajado de Santa Catarina, onde morava, para a Paraíba, com o argumento de ajudar nos cuidados do filho.
A mãe da criança mora em João Pessoa e está em um novo relacionamento. O pai manteve contato com ela e pediu para se encontrar com o menino, o que aconteceu no bairro de Manaíra, zona leste da capital paraibana.
Ela contou que deixou pronto tudo o que o filho precisaria durante o período em que ficaria com o pai e que pediu para que o homem a avisasse caso a criança apresentasse algum sinal de irritação enquanto eles estivessem juntos.
“Tudo foi muito combinado. A gente conversou, eu sentei com ele. Um dia antes eu expliquei: ‘cara, o Arthur é assim, ele come assim’, eu passei no mercado, comprei o que ele gostaria de comer. Arrumei a roupinha dele, falei: ‘ele vai viajar com tal roupa, tem o fonezinho abafador, como ele é uma criança autista, pode ser que ele se irrite no caminho, mas me avisa, ele tem horário de ir no banheiro, ele tem as coisinhas dele'...", contou Aline.
Ao g1, Aline afirmou que Davi sabia dar os cuidados especiais que o filho precisava por ser uma pessoa com autismo e também com deficiência visual. Ela diz que há alguns anos o menino também foi diagnosticado com o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), mas mesmo assim ele era capaz de cuidar.
"Ele sabia das limitações e sabia como cuidar. E assim, o Arthur havia evoluído muito, muita coisa, o Arthur já era mais independente, porque eu sempre tratei de um jeito que ele pudesse viver as alimentações dele com o máximo de independência", explicou.
Conforme as investigações, Davi levou o corpo até o bairro Colinas do Sul após ter matado a criança e o enterrou nas imediações de uma antiga fábrica abandonada. O corpo foi encontrado dentro de um saco plástico preto, parcialmente coberto por terra, em uma cova rasa.
A relação entre o pai e a mãe
Sobre a relação entre Aline e Davi, ela disse que após a separação e a vinda para João Pessoa não procurava saber da vida dele. Ela disse que não sabia, inclusive, com o que ele trabalhava em Santa Catarina. Ele também não interferia na vida dela.
“Nesse decorrer dos anos, eu nunca me envolvi na vida pessoal dele e nunca deixei que ele se envolvesse na minha vida pessoal (...) E eu nunca soube da vida pessoal dele, como era o trabalho, como eram as coisas. Ele sempre pagou a pensão e nunca me falou nada sobre”, explicou.
No que se refere ao impacto emocional pela perda do filho, Aline desabafou que psicologicamente está precisando de apoio e que tem chorado muito nos últimos tempos, após a morte do menino. Ela cita até que costumava não chorar na frente do filho e que, após o homicídio dele, não faz outra coisa a não ser chorar.
"Comecei uma terapia ontem. E a todo momento eu choro, eu paro. Não tenho nem o que chorar quase. Porque sempre nas nossas batalhas eu conversava com o Arthurzinho e falava assim 'mamãe é forte pra você, não vou chorar pertinho de você'", relembrou.
Outro episódio que a mãe recordou foi a última conversa que ela teve com o pai da criança, antes de levá-lo para o pai, em um tom de pedido para a reaproximação entre ambos. Ela disse que um dos argumentos utilizados por ela para fazê-lo se aproximar foi justamente demonstrar como Arthur poderia ajudá-lo também.
"E da última vez que eu falei com o genitor dele, eu falei assim, ‘espero que o Arthur te ensine alguma coisa, assim como ele sempre me ensinou, nesse curto espaço de tempo'", disse.
Sobre motivações, Aline conta que não entende e não consegue compreender como o pai foi responsável pelo homicídio.
"Sem chão, sem chão, não tem explicação, nada tem explicação pra mim, nada mesmo. E nada justifica", disse.
Fonte: G1